A Nona Vida de Louis Drax

Apresentado inicialmente como uma história bonitinha de superação de uma criança que entra em coma, este filme tem o dom de te fazer rever como a compaixão é a pior coisa já inventada pela humanidade. Ela destrói vidas como se estivesse a ajudá-las, mas levada ao extremo, é tão doentio que mostra a outra diferença entre animais e seres humanos: mesmo sabendo o que é errado, seres humanos continuam a fazê-lo.

Tudo começa com este garoto perspicaz, o Louis Drax do título, interpretado facilmente por Aiden Longworth. Ele é ligeiro nos pensamentos, tem uma visão cética a respeito da vida, e faz observações adultas disfarçadas de criança para seu psicólogo, um doutor gordo, de meia-idade, que se espalha em seu sofá sempre segurando sua caneca de café (um Oliver Platt esquecido nos créditos, mas eficientemente divertido). Sua vida, de acordo com ele, é uma sequência de acidentes, muitos deles graves, que quase o fazem morrer. Seu próprio nascimento foi assim, e quase foi o fim dele e de sua mãe, Natalie (Sarah Gadon).

Em seu nono aniversário, o acidente mais fatal o deixa em coma. Analisado por um expert em comas que tem também fé na recuperação dos seus pacientes, o Dr. Allan Pascal (Jamie Dornan) faz palestras no TED, o que com certeza quer dizer alguma coisa. Porém, longe do palco, ele se assemelha a um enfermeiro, ou nem isso, pois parece praticamente inútil como médico, pois está todo o tempo servindo de companhia para Natalie enquanto o pequeno Louis Drax fica simplesmente vegetando em sua cama. Até com toda a fé do Doutor, o caso de Drax é aparentemente irreversível.

Resta, então, entender como foi o tal acidente. E é sobre isso que o filme é, além de ser sobre como uma vida pode ser miserável se entregue a uma doutrina errada. E a doutrina nesse caso é a doença da compaixão, o de agir por piedade, de ajudar aos outros não porque eles merecem, mas porque eles estão pedindo. Esse processo de descoberta gera o mistério que por sua vez torna Aaron Paul (Breaking Bad) um pai que sofre para manter sua família, e que tenta a todo custo trazer consolo e tornar seu filho feliz, independente da suposta fragilidade mental de sua esposa.

O diretor Alexandre Aja parece não saber muito bem o tom de sua narrativa. Ele usa esquetes como efeitos visuais de choque quando o menino coloca um garfo na tomada, além de em alguns momentos preferir o horror simplesmente porque sim – como um garoto olhando assustadoramente pela janela de um hospital. Tudo isso incomoda. Mas tudo isso são pecadilhos diante de uma direção que foca no tom claustrofóbico da história, que vai de sonho para realidade e de volta para sonho nos fazendo questionar o que tudo isso significa. Suspendendo o mistério por toda a história, as pequenas descobertas são peças de um mosaico interessante por fazerem parte de um quebra-cabeças pessoal, além da tensa narrativa encoberta em uma trilha sonora clichê que torna tudo ainda um pouco televisivo.

O mais impressionante é que com tudo isso as ideias por trás de “A Nona Vida…” funcionam. É claro que não estamos falando, como mencionei, na história bonitinha de superação. O filme inteiro parece ser feito para desmistificar essa impressão, e nos preparar para apresentar a visão mais feia de “As Aventuras de Pi”, ou a visão mais feia da humanidade enquanto movida pela compaixão, pelo desejo irracional e aparentemente incontrolável de fazer as pessoas sacrificarem suas vidas pelas de outras. O estopim de tudo isso é uma personagem oculta, que de tão desinteressante soa o que pretende ser, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Porém, ótimo mesmo é a conclusão da história, que mexe com nossos valores mais primitivos para fazer questionar o que pode ser tão horrível. Ao sabermos, espero que os espectadores detectem o real motivo por trás de tudo isso. Como dica, olhe para a aproximação do Doutor Crente em cima da mãe do garoto. O que o levou a isso? Se a resposta for compaixão, já estará indo no caminho certo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-10-04. A Nona Vida de Louis Drax. The 9th Life of Louis Drax (UK, 2016). Dirigido por Alexandre Aja. Escrito por Liz Jensen, Max Minghella. Com Jamie Dornan (Dr. Allan Pascal), Aiden Longworth (Louis Drax), Sarah Gadon (Natalie), Michael Adamthwaite (Doctor), Aaron Paul (Peter), Beckham Skodje (Louis), Adam Abrams (Doctor), Molly Parker (Dalton), Terry Chen (Elliott). imdb