A Ovelha Negra

Feb 2, 2016

Imagens

Esse filme cria uma dualidade bem curiosa entre ovelhas e criadores de ovelhas. Vivendo em um vilarejo minúsculo, onde mulher não é algo fácil de se achar, a história dos dois irmãos que são vizinhos e não se falam por quarenta anos evoca a questão de que ovelhas estamos falando, e qual delas é negra.

Tendo aparentemente a criação de ovelhas não só um meio de subsistência, mas orgulho, há um campeonato entre os fazendeiros para descobrir qual a melhor criação. O irmão mais novo da história, Gummi (Sigurður Sigurjónsson), cuida de suas ovelhas premiadas como parte da família que não possui, se orgulhando de uma maneira engraçada até quando o macho-alfa procria com suas fêmeas (o que pode ser um eco de uma homossexualidade velada no filme, mas chegaremos lá).

Ao ver que sua ovelha perdeu o primeiro lugar para a do irmão, Kiddi (Theodór Júlíusson), a história começa a se desenrolar quando este pede que ela seja diagnosticada por veterinários da cidade, pois ele desconfia que a vencedora do prêmio tem uma doença dizimadora de rebanhos. Dito e feito, é ordenado que todas as ovelhas da região sejam sacrificadas. O clima de desolação dos moradores é péssimo. Um casal desiste do negócio. O tempo para voltar à ativa é de dois anos. E enquanto isso o irmão mais velho e estourado atira nas janelas de seu irmão e começa a se embebedar e se jogar na neve densa e castigadora do inverno. “Teremos um inverno horrível graças a você”, confere um personagem em tom profético. Essa é uma história com ritmo próprio guiada pelas estações, que derretem e congelam a cada ano o vale onde vivem.

O mais fascinante de acompanhar o desenrolar da história é observar como cada nova ação, de qualquer um dos dois irmãos, vai desenhando, aos poucos, sua personalidade, e como são naturalmente incompatíveis. Um é intenso e emotivo, o outro calculista, embora não exatamente frio. Quando o cerco vai se fechando, novas revelações de tornam emocionantes justamente por termos conhecido tão bem aquelas pessoas.

O filme é rodado em uma tela ampla, que beneficia o gigantesco cartão-postal que é a Islândia. Porém, aqui também serve para destacar o isolamento físico e emocional dos personagens. Quando o carinho de um pelas ovelhas é transferido para um porão, não é muito difícil de perceber que a história fala de sentimentos contidos, que podem ou não estar relacionados com homossexualidade (ou até – chute imenso – incesto). No entanto, o filme nunca deixa isso claro. Nem precisa. Não precisamos entender como aqueles personagens chegaram naquela situação, mas o que se tornaram, e se estão dispostos a voltar o que eram. Nesse sentido, A Ovelha Negra é um estudo denso de personagens.

Wanderley Caloni, 2016-02-02. A Ovelha Negra. Hrútar (Iceland, 2015). Dirigido por Grímur Hákonarson. Escrito por Grímur Hákonarson. Com Sigurður Sigurjónsson, Theodór Júlíusson, Charlotte Bøving, Jon Benonysson, Gunnar Jónsson, Þorleifur Einarsson, Sveinn Ólafur Gunnarsson, Ingrid Jónsdóttir, Jörundur Ragnarsson. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.