A Ovelha Negra

Esse filme cria uma dualidade bem curiosa entre ovelhas e criadores de ovelhas. Vivendo em um vilarejo minúsculo, onde mulher não é algo fácil de se achar, a história dos dois irmãos que são vizinhos e não se falam por quarenta anos evoca a questão de que ovelhas estamos falando, e qual delas é negra.

Tendo aparentemente a criação de ovelhas não só um meio de subsistência, mas orgulho, há um campeonato entre os fazendeiros para descobrir qual a melhor criação. O irmão mais novo da história, Gummi (Sigurður Sigurjónsson), cuida de suas ovelhas premiadas como parte da família que não possui, se orgulhando de uma maneira engraçada até quando o macho-alfa procria com suas fêmeas (o que pode ser um eco de uma homossexualidade velada no filme, mas chegaremos lá).

Ao ver que sua ovelha perdeu o primeiro lugar para a do irmão, Kiddi (Theodór Júlíusson), a história começa a se desenrolar quando este pede que ela seja diagnosticada por veterinários da cidade, pois ele desconfia que a vencedora do prêmio tem uma doença dizimadora de rebanhos. Dito e feito, é ordenado que todas as ovelhas da região sejam sacrificadas. O clima de desolação dos moradores é péssimo. Um casal desiste do negócio. O tempo para voltar à ativa é de dois anos. E enquanto isso o irmão mais velho e estourado atira nas janelas de seu irmão e começa a se embebedar e se jogar na neve densa e castigadora do inverno. “Teremos um inverno horrível graças a você”, confere um personagem em tom profético. Essa é uma história com ritmo próprio guiada pelas estações, que derretem e congelam a cada ano o vale onde vivem.

O mais fascinante de acompanhar o desenrolar da história é observar como cada nova ação, de qualquer um dos dois irmãos, vai desenhando, aos poucos, sua personalidade, e como são naturalmente incompatíveis. Um é intenso e emotivo, o outro calculista, embora não exatamente frio. Quando o cerco vai se fechando, novas revelações de tornam emocionantes justamente por termos conhecido tão bem aquelas pessoas.

O filme é rodado em uma tela ampla, que beneficia o gigantesco cartão-postal que é a Islândia. Porém, aqui também serve para destacar o isolamento físico e emocional dos personagens. Quando o carinho de um pelas ovelhas é transferido para um porão, não é muito difícil de perceber que a história fala de sentimentos contidos, que podem ou não estar relacionados com homossexualidade (ou até – chute imenso – incesto). No entanto, o filme nunca deixa isso claro. Nem precisa. Não precisamos entender como aqueles personagens chegaram naquela situação, mas o que se tornaram, e se estão dispostos a voltar o que eram. Nesse sentido, A Ovelha Negra é um estudo denso de personagens.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-02-02 imdb