A Partida

2017/01/15

Este é um filme que trata a morte de maneira direta ao apresentar-nos a profissão de preparador de corpos. No Japão há uma cerimônia com os familiares e amigos presentes em que o corpo é limpo e maquiado para voltar à vida. Além de possui uma quantidade assombrosa de momentos tocantes (leve seu lenço), seja por esses momentos ou pela poesia implícita neles, A Partida de certa forma celebra a vida como um processo de auto-descoberta, e a morte como uma despedida solene das pessoas que convivemos por este breve tempo.

Porém, o roteiro também é impecável ao retratar a própria descoberta de Daigo, que vemos logo no começo realizar a cerimônia da maneira mais profissional possível. Um breve retorno no tempo e conhecemos o músico Daigo, que está inconsolável pelo seu sonho de tocar violoncelo pelo mundo ter encontrar a realidade dura quando fica sem emprego e sem ter como pagar pelo instrumento. Voltando com a compreensiva esposa para sua cidade natal, ele logo encontra a vaga para sua futura profissão e é contratado imediatamente para um cargo de assistente que paga muitíssimo bem.

Isso acontece porque as pessoas são muito supersticiosas com defuntos, que é um assunto delicado em qualquer lugar, mas que na cultura japonesa isso é ainda pior, considerada até como a pior profissão possível, colocada no filme como um castigo para expiar seus pecados.

O filme de Yôjirô Takita é puro e apaixonado por si mesmo. Ele eleva a discussão fúnebre quase que celebrando a vida. Ele usa a nona sinfonia de Beethoven como transformadora e seu tema é um toque clássico repetido à exaustão apenas porque, assim como Cinema Paradiso, ele pode. Nunca se torna demais.

Há um subtexto envolvendo o pai de Daigo, que abandonou sua família quando este tinha seis anos. Não conseguindo se lembrar da face de seu pai, esta é uma mágoa que o acompanha em toda sua vida e torna difícil que este expresse seus sentimentos até para sua esposa. Depois de algumas reviravoltas importantes, em que ele reconquista o respeito da mulher, ele precisa tomar uma decisão que provavelmente irá mudá-lo para sempre. Sentimentos complexos estão em jogo em um final que catalisa tudo o que aprendemos até aqui. A Partida é uma ode à vida que só conseguiria se tornar tão poderosa se comparada à morte, o fim trágico que todos nós devemos cedo ou tarde encarar.

O roteiro de Kundô Koyama, inspirado levemente na vida e livro do escritor Shinmon Aoki, utiliza todos os personagens e situações apresentadas para mover o filme e seu protagonista. O filho da dona da casa de banho tem uma garota pequena porque ela representa a pureza do ser humano, que olha com curiosidade e fascinação, e sem preconceito, alguém que sabe tocar o violoncelo. Ela faz o contraponto do preocupado filho, que se cansa de ver sua mãe trabalhar por décadas a fio, realizando a função que torna todos na cidadezinha felizes. A beleza da cultura japonesa consegue ser exibida sem diálogos filosóficos muito mais profundos.

★★★★★ Título original: Okuribito. País de origem: Japan. Ano 2008. Direção: Yôjirô Takita. Roteiro: Kundô Koyama. Elenco: Masahiro Motoki (Daigo Kobayashi). Tsutomu Yamazaki (Ikuei Sasaki). Ryôko Hirosue (Mika Kobayashi). Kazuko Yoshiyuki (Tsuyako Yamashita). Kimiko Yo (Yuriko Uemura). Takashi Sasano (Shokichi Hirata). Tetta Sugimoto (Yamashita). Tôru Minegishi (Yoshiki Kobayashi). Tatsuo Yamada (Togashi). Edição: Akimasa Kawashima. Fotografia: Takeshi Hamada. Trilha Sonora: Joe Hisaishi. Duração: 130. Razão de aspecto: 1.85 : 1. Gênero: Drama. Tags: dvd

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