A Partida

Este é um filme que trata a morte de maneira direta ao apresentar-nos a profissão de preparador de corpos. No Japão há uma cerimônia com os familiares e amigos presentes em que o corpo é limpo e maquiado para voltar à vida. Além de possui uma quantidade assombrosa de momentos tocantes (leve seu lenço), seja por esses momentos ou pela poesia implícita neles, A Partida de certa forma celebra a vida como um processo de auto-descoberta, e a morte como uma despedida solene das pessoas que convivemos por este breve tempo.

Porém, o roteiro também é impecável ao retratar a própria descoberta de Daigo, que vemos logo no começo realizar a cerimônia da maneira mais profissional possível. Um breve retorno no tempo e conhecemos o músico Daigo, que está inconsolável pelo seu sonho de tocar violoncelo pelo mundo ter encontrar a realidade dura quando fica sem emprego e sem ter como pagar pelo instrumento. Voltando com a compreensiva esposa para sua cidade natal, ele logo encontra a vaga para sua futura profissão e é contratado imediatamente para um cargo de assistente que paga muitíssimo bem.

Isso acontece porque as pessoas são muito supersticiosas com defuntos, que é um assunto delicado em qualquer lugar, mas que na cultura japonesa isso é ainda pior, considerada até como a pior profissão possível, colocada no filme como um castigo para expiar seus pecados.

O filme de Yôjirô Takita é puro e apaixonado por si mesmo. Ele eleva a discussão fúnebre quase que celebrando a vida. Ele usa a nona sinfonia de Beethoven como transformadora e seu tema é um toque clássico repetido à exaustão apenas porque, assim como Cinema Paradiso, ele pode. Nunca se torna demais.

Há um subtexto envolvendo o pai de Daigo, que abandonou sua família quando este tinha seis anos. Não conseguindo se lembrar da face de seu pai, esta é uma mágoa que o acompanha em toda sua vida e torna difícil que este expresse seus sentimentos até para sua esposa. Depois de algumas reviravoltas importantes, em que ele reconquista o respeito da mulher, ele precisa tomar uma decisão que provavelmente irá mudá-lo para sempre. Sentimentos complexos estão em jogo em um final que catalisa tudo o que aprendemos até aqui. A Partida é uma ode à vida que só conseguiria se tornar tão poderosa se comparada à morte, o fim trágico que todos nós devemos cedo ou tarde encarar.

O roteiro de Kundô Koyama, inspirado levemente na vida e livro do escritor Shinmon Aoki, utiliza todos os personagens e situações apresentadas para mover o filme e seu protagonista. O filho da dona da casa de banho tem uma garota pequena porque ela representa a pureza do ser humano, que olha com curiosidade e fascinação, e sem preconceito, alguém que sabe tocar o violoncelo. Ela faz o contraponto do preocupado filho, que se cansa de ver sua mãe trabalhar por décadas a fio, realizando a função que torna todos na cidadezinha felizes. A beleza da cultura japonesa consegue ser exibida sem diálogos filosóficos muito mais profundos.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2017-01-15 imdb