A Passageira

Sep 17, 2016

Imagens

Este é um filme com premissas todas erradas, um quê de relativização do estupro com requintes de exploração da miséria alheia, e um guia para sociedades dispostas a afundar em um esgoto moral. Infelizmente, essas sociedades nunca sairiam do lugar, já que o universo de A Passageira é um lodo cercado de pena e culpa de todos os lados. Não importa qual decisão você tome neste universo: ele estará indubitavelmente errado. Pelo menos para este filme.

Tudo começa quando Magallanes (Damián Alcázar) acaba reencontrando a bela Celina (Magaly Solier) em uma de suas parcas viagens em seu táxi improvisado. Vivendo de cuidar de seu ex-coronel, hoje senil e faltando a memória, logo sabemos que há algo de misterioso e afetivo na relação do passado entre o abatido taxista e a moça trabalhadora, que luta para tentar manter seu salão de beleza enquanto tenta revender produtos de um esquema de pirâmide que se confunde com sessão de auto-ajuda e culto evangélico.

Ambos estão tentando sobreviver em Lima, no Peru, uma megalópole que como toda grande cidade mantém “zumbis” orbitando sua periferia. Nesse caso, todos sentem culpa e remorso do passado que tiveram, o que combina perfeitamente com a definição de pessoas que nunca irão na verdade melhorar de vida, pois desejam pertencer à escória da sociedade para sempre, nem que de forma inconsciente.

O diretor e roteirista estreante Salvador del Solar usa e abusa do melodramático. Ele até arranja um filho deficiente (que é escondido em um quartinho) para a sua donzela violada. Ela e Magallanes são explorados de todas as formas. A miséria material e espiritual dos personagens principais flerta com uma possibilidade de beleza em tudo isso.

Ledo engano. Apesar de eficiente em suas luzes e sombras, e uma edição ágil com uma montagem que nos deixa confusos com tudo aquilo (fruto dos enquadramentos em closes e profundidade de campo limitada de del Solar), todo aquele universo parece torcer para que nos sintamos culpados de alguma forma irreversível, e para isso relativiza até a violação de uma menor de idade, soltando uma frase que simboliza tudo o que o filme tem a dizer sobre certo e errado: é relativo.

Wanderley Caloni, 2016-09-17. A Passageira. Magallanes (Peru, 2015). Dirigido por Salvador del Solar. Escrito por Salvador del Solar. Com Damián Alcázar, Tatiana Astengo, Jairo Camargo, Tatiana Espinoza, Nicolás Galindo, Federico Luppi, Camila MacLennan, Christian Meier, Bruno Odar. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.