A Passageira

Este é um filme com premissas todas erradas, um quê de relativização do estupro com requintes de exploração da miséria alheia, e um guia para sociedades dispostas a afundar em um esgoto moral. Infelizmente, essas sociedades nunca sairiam do lugar, já que o universo de A Passageira é um lodo cercado de pena e culpa de todos os lados. Não importa qual decisão você tome neste universo: ele estará indubitavelmente errado. Pelo menos para este filme.

Tudo começa quando Magallanes (Damián Alcázar) acaba reencontrando a bela Celina (Magaly Solier) em uma de suas parcas viagens em seu táxi improvisado. Vivendo de cuidar de seu ex-coronel, hoje senil e faltando a memória, logo sabemos que há algo de misterioso e afetivo na relação do passado entre o abatido taxista e a moça trabalhadora, que luta para tentar manter seu salão de beleza enquanto tenta revender produtos de um esquema de pirâmide que se confunde com sessão de auto-ajuda e culto evangélico.

Ambos estão tentando sobreviver em Lima, no Peru, uma megalópole que como toda grande cidade mantém “zumbis” orbitando sua periferia. Nesse caso, todos sentem culpa e remorso do passado que tiveram, o que combina perfeitamente com a definição de pessoas que nunca irão na verdade melhorar de vida, pois desejam pertencer à escória da sociedade para sempre, nem que de forma inconsciente.

O diretor e roteirista estreante Salvador del Solar usa e abusa do melodramático. Ele até arranja um filho deficiente (que é escondido em um quartinho) para a sua donzela violada. Ela e Magallanes são explorados de todas as formas. A miséria material e espiritual dos personagens principais flerta com uma possibilidade de beleza em tudo isso.

Ledo engano. Apesar de eficiente em suas luzes e sombras, e uma edição ágil com uma montagem que nos deixa confusos com tudo aquilo (fruto dos enquadramentos em closes e profundidade de campo limitada de del Solar), todo aquele universo parece torcer para que nos sintamos culpados de alguma forma irreversível, e para isso relativiza até a violação de uma menor de idade, soltando uma frase que simboliza tudo o que o filme tem a dizer sobre certo e errado: é relativo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-09-17 imdb