A Pele que Habito

Wanderley Caloni, November 18, 2011

É fascinante acompanhar a carreira de um diretor habilidoso como Almodóvar. Ele possui aquela flexibilidade rara que permite que entre em qualquer projeto mantendo a sua marca, mas ao mesmo tempo contribuindo positivamente para a narrativa, sem torná-la autoral. Ou pelo menos tenta.

Nesse terror moderno, que lembra um Frankenstein feito ao estilo do diretor espanhol, um brilhante cirurgião plástico, Robert Ledgard (Banderas, sisudo e constante), atormentado por sombras do seu passado em que perdeu a mulher e filha, desenvolve em suas pesquisas uma pele sintética capaz de resistir a qualquer tipo de dano, como queimaduras graves. Usando uma mulher desconhecida que se hospeda na privacidade de sua casa como cobaia, o vemos desenvolvendo seu projeto com toda a dedicação e frieza que convém a um cientista.

Sim, o sangue-frio é uma característica louvável a qualquer pessoa cujo trabalho envolve dedicação, especialmente se com pessoas e suas vidas. Porém, algo de sombrio paira sobre a aparente virtude do Dr. Ledgard, que não consegue ser expressa por palavras, mas é possível de se enxergar através de suas minuciosas ações.

E é aí que entra a direção não-intrusiva mas inteligente de Almodóvar. Com sua costumeira e invejável produção, sempre assessorado pelo seu irmão caçula e produtor Augustin, a trilha sonora, que evoca o drama e a fantasia da história nos momentos certos, e a fotografia, adequadamente sombria e impessoal (chegando a aparentar uma clínica), dão o tom exato para refletir a mente doentia que se esconde por trás da maestria do médico, maestria essa conquistada, acreditamos nós, pela sua persistência que assume um formato sobre-humano em suas pesquisas, o que pode passar despercebido em um primeiro momento, mas vai aos poucos se tornando mais estranho conforme adentramos em rotina.

A função da direção, nesse caso, é interferir o menos possível e deixar que a história conte a si mesma, mas ao mesmo tempo expressando sua visão, coisa que Almodóvar faz abusando de planos com a câmera alta que, ao mesmo tempo que favorece a amplitude dos ambientes também evoca (ou denuncia) a aspiração do médico de “brincar de Deus”, o que pode significar a sua visão em relação à sua cobaia ou o próprio significado da manipulação além dos limites da ética médica, algo que é deixado implícito em um pequeno diálogo no começo com o diretor do centro de pesquisas onde Ledgard participa. Tanto ele quanto Ledgard sabem dos inúmeros benefícios que estariam à disposição da raça humana se os experimentos biológicos tivessem uma liberdade maior. Porém, ambos concordam que esse limite possui sua função ética a evitar os eventuais abusos que poderiam ocorrer. Afinal de contas, quem define até onde é aceitável a intervenção genética é o próprio ser humano através do seu bom senso, que se traduz no bom convívio em sociedade e suas regras sociais.

Regras essas que parecem fugir um pouco do controle da mente de Dr. Ledgard, que em determinado momento-chave da trama parece apenas usar um acontecimento como pretexto para iniciar suas pesquisas. Aliás, antes mesmo do evento-chave, uma história intermediária que dá à luz esses eventos passados consegue traçar a personalidade doentia do médico justamente através, quem diria, de sua predisposição genética.

Mas voltemos ao evento-chave. A necessidade de chamar a atenção e ao mesmo tempo explicar duas versões desse evento faz com que o diretor acertadamente crie uma sutil volta dupla pelo mesmo caminho narrativo, o que possui a dupla vantagem de 1) mostrar duas versões do mesmo acontecimento e 2) reforçar a importância desse acontecimento para com toda a história.

A partir daí acompanhamos o que parece ser, do ponto de vista da câmera, fruto dúbio de dedicação e obsessão do médico, que aplica seu conhecimento da mesma forma dedicada vista no início da trama, mas dessa vez médico e cineasta se fundem, como uma dupla, compondo a melhor sequência do longa. A forma de alcançar esse efeito, aliás, evocando e ligando pontos passados do roteiro, comprova estarmos testemunhando um verdadeiro artista que, assim como o médico, tece sua história com uma precisão cirúrgica.

Ao mesmo tempo, a direção não é indiferente aos acontecimentos, e adota como foco não a crueldade dos atos do médico, mas, mais importante, a transformação que está ocorrendo, pois é com essa metamorfose que Almodóvar mais uma vez aborda as dores e injustiças contra a mulher. Na verdade, mais do que isso: transcende o próprio gênero, criando, com isso, um hino contra as injustiças infligidas contra qualquer ser humano. Por esse ponto de vista, os meios (de contar a história) acabam se justificando para que se alcancem os fins.

Não fica claro se o plano em câmera alta do ato final passa a usar o ponto de vista Divino de fato, se questionando até que ponto os humanos chegariam se não houvesse a ética e a moral. Fica claro, porém, que Almodóvar não está conformado ainda com seu avanço no meio cinematográfico, e essa nova alçada confirma, de forma surpreendente, que um dos maiores cirurgiões do Cinema está de volta à sua boa forma.

Imagens e créditos no IMDB.
A Pele que Habito ● A Pele que Habito. La piel que habito (Spain, 2011). Dirigido por Pedro Almodóvar. Escrito por Agustín Almodóvar, Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet. Com Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Eduard Fernández, José Luis Gómez, Blanca Suárez, Susi Sánchez. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2011-11-18. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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