A Ponte do Rio Kwai

Jul 18, 2016

Imagens

É um daqueles trabalhos épicos dos anos 50 com a trilha sonora pomposa (Malcolm Arnold), cerimoniosa, em torno de um grande feito orquestrado por um grande homem. O coronel Nicholson (Alec Guinness) tem seu batalhão prisioneiro dos japoneses na Segunda Guerra em uma floresta tão densa e tão isolada do mundo que o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) dispensa controle de fugitivos. A guerra continua e eles precisam construir uma ponte naquele fim de mundo em um prazo curto. Todos os países da língua inglesa parecem se unir e sabotar os planos orientais. Há ao mesmo tempo uma disputa de ego, discursos sobre honra e princípios e uma alegoria muito clara sobre o que é a guerra.

Ao mesmo tempo, se torna uma metáfora sobre como fazer filmes, o seu esforço e o seu legado. Tantos figurantes em um pedaço de floresta. Ao final, um pedaço de arte que extrai do mundo físico muito mais do que ele é. Não é uma história sobre um rio, uma guerra ou sequer uma ponte. Esses são fabricados a duras penas, mas é o resultado, o efeito final que conta.

E por falar em efeito, estamos em uma época em que “a verdade está lá fora”, e não dentro desses espertos e rápidos computadores dos dias de hoje. Todos os delírios visuais que você ver nesse filme – incluindo o final bombástico – estão nele porque foram fisicamente criados. A fotografia de Jack Hildyard torna tudo verdadeiramente quente, em um amarelo que só encontra descanso no verde intocado da floresta. Não se sabe se a maquiagem da dupla Stuart Freeborn e George Partleton resolveu usar um tom naturalista ou se estão realmente escorrendo lágrimas do elenco, mas o efeito é soberbo. Sentimos o calor só de olhar para eles, e seus olhos brilharem absurdamente.

Alec Guinness cria aqui um ser humano moral que rouba a cena no primeiro um terço do filme. A química que acontece entre seu incorruptível senso de justiça e a raiva milenar do coronel oriental interpretado por Sessue Hayakawa é a grande força motriz dessa introdução, e mereceu tornar o filme mais longo do que devia. As primeiras cenas, mesmo se passando décadas após assistir o filme, continuarão na mente do espectador.

Apesar do roteiro simples e coeso da dupla Carl Foreman e Michael Wilson, que sequer foram creditados no filme, apesar de conter diálogos, passagens e uma artimanha engenhosa em seu terceiro ato, é a direção de David Lean que torna tudo mais grandioso e até certo ponto fantasioso sem perder o senso da razão (como o impecável Dr. Strangelove de Kubrick, também sobre a guerra). Lean gravaria cinco anos depois Lawrence da Arábia, demonstrando que não há nada que não possa fazer em cenas externas.

A Ponte do Rio Kwai, apesar de um “filme antigo”, ainda carrega uma energia invejável, algumas tiradas humorísticas relativamente eficientes, mas, acima de tudo, uma moral da história que transcende a superprodução.

Wanderley Caloni, 2016-07-18. A Ponte do Rio Kwai. The Bridge on the River Kwai (UK, 1957). Dirigido por David Lean. Escrito por Pierre Boulle, Carl Foreman, Michael Wilson. Com William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, André Morell, Peter Williams, John Boxer. IMDB.