A Ponte do Rio Kwai

É um daqueles trabalhos épicos dos anos 50 com a trilha sonora pomposa (Malcolm Arnold), cerimoniosa, em torno de um grande feito orquestrado por um grande homem. O coronel Nicholson (Alec Guinness) tem seu batalhão prisioneiro dos japoneses na Segunda Guerra em uma floresta tão densa e tão isolada do mundo que o Coronel Saito (Sessue Hayakawa) dispensa controle de fugitivos. A guerra continua e eles precisam construir uma ponte naquele fim de mundo em um prazo curto. Todos os países da língua inglesa parecem se unir e sabotar os planos orientais. Há ao mesmo tempo uma disputa de ego, discursos sobre honra e princípios e uma alegoria muito clara sobre o que é a guerra.

Ao mesmo tempo, se torna uma metáfora sobre como fazer filmes, o seu esforço e o seu legado. Tantos figurantes em um pedaço de floresta. Ao final, um pedaço de arte que extrai do mundo físico muito mais do que ele é. Não é uma história sobre um rio, uma guerra ou sequer uma ponte. Esses são fabricados a duras penas, mas é o resultado, o efeito final que conta.

E por falar em efeito, estamos em uma época em que “a verdade está lá fora”, e não dentro desses espertos e rápidos computadores dos dias de hoje. Todos os delírios visuais que você ver nesse filme – incluindo o final bombástico – estão nele porque foram fisicamente criados. A fotografia de Jack Hildyard torna tudo verdadeiramente quente, em um amarelo que só encontra descanso no verde intocado da floresta. Não se sabe se a maquiagem da dupla Stuart Freeborn e George Partleton resolveu usar um tom naturalista ou se estão realmente escorrendo lágrimas do elenco, mas o efeito é soberbo. Sentimos o calor só de olhar para eles, e seus olhos brilharem absurdamente.

Alec Guinness cria aqui um ser humano moral que rouba a cena no primeiro um terço do filme. A química que acontece entre seu incorruptível senso de justiça e a raiva milenar do coronel oriental interpretado por Sessue Hayakawa é a grande força motriz dessa introdução, e mereceu tornar o filme mais longo do que devia. As primeiras cenas, mesmo se passando décadas após assistir o filme, continuarão na mente do espectador.

Apesar do roteiro simples e coeso da dupla Carl Foreman e Michael Wilson, que sequer foram creditados no filme, apesar de conter diálogos, passagens e uma artimanha engenhosa em seu terceiro ato, é a direção de David Lean que torna tudo mais grandioso e até certo ponto fantasioso sem perder o senso da razão (como o impecável Dr. Strangelove de Kubrick, também sobre a guerra). Lean gravaria cinco anos depois Lawrence da Arábia, demonstrando que não há nada que não possa fazer em cenas externas.

A Ponte do Rio Kwai, apesar de um “filme antigo”, ainda carrega uma energia invejável, algumas tiradas humorísticas relativamente eficientes, mas, acima de tudo, uma moral da história que transcende a superprodução.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-07-18 imdb