A Possessão do Mal

O terror atual se estabelece como uma repetição exaustiva da fórmula da Bruxa de Blair (de 99) “refinado” por seus trabalhos mais caseiros no estilo Atividade Paranormal (de 2007). Tudo que gira em torno desse micro-cosmos são pequenas variações do mesmo tema. Sempre foi assim e sempre será. De vez em quando temos uma surpresa, mas geralmente ela demora a chegar.

Da mesma forma com que Michael (Shane Johnson), o protagonista de A Possessão do Mal, aguarda por provas concretas de que exista o sobrenatural. Tendo perdido a mulher cedo, algo que ele atribui a uma influência direta de um conselho dado pela cartomante de sua esposa, e tendo como profissão de documentarista, Michael se dedica a um projeto pessoal seis meses após ficar viúvo: lotar a casa de câmeras, visitar especialistas do oculto, e aguardar pelos espíritos/criaturas/etc em sua casa. E filmá-los. Obviamente, como todos que já leram a cartilha informal dos filmes de terror, sua ideia terá frutos, mas não tem a menor chance de dar certo, ou como ele espera que dê certo.

Dirigido pelo estreante David Jung, que também assina o roteiro com Tedi Sarafian (O Exterminador do Futuro 3), o maestro do filme com certeza é o editor Jake York, pois a sensação de desorientação espacial e temporal se deve aos saltos gigantescos que parecem dar lugar à ordem e ao método de Michael, conforme ele vai se sentindo atordoado, ouvindo vozes e sentindo que não possui mais o controle total sobre seu próprio corpo.

É claro que a ideia de usar a visão subjetiva – aquela que parte do rosto do ator – dá o toque especial ao projeto, pois todo o resto é cópia da cópia da cópia. E mesmo assim, ainda que tenhamos a desculpa de ver Michael quase sempre com uma câmera na mão, não é sempre que ela está ali, além de que a decupagem preguiçosa do diretor torne os enquadramentos magicamente sempre alinhados com a ação que se desenrola. Parece ocorrer um acordo informal entre filme e espectador, assim como houve no ótimo Poder Sem Limites.

De qualquer forma, o importante é que a narrativa nunca trai o espectador, nem se torna repetitiva ou enfadonha. Sempre estamos desejando saber o que acontece depois, o que é algo extremamente positivo vindo de um trabalho cheio de predecessores. É sempre bom saber que existem cineastas dispostos a pegar trabalhos mal-feitos e reelaborar em torno de experiências mais bem-sucedidas, ainda que igualmente esquecíveis.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-10-01 imdb