A Primeira Noite de um Homem

Esse é um filme que possui a alma dos anos 60. Quebra de convenções por todos os lados, e um cuidado especial na condução de uma… quem diria, comédia romântica, em tons sortidos; pelo menos o suficiente para que não encaremos os detalhes inseridos na trama apenas como engraçados, mas também dramáticos; e fiquemos apreensivos pelo destino de um dos heróis mais icônicos e irônicos do Cinema: Ben Braddock.

Dirigido por Mike Nichols (que morreu de ataque do coração ano passado), o filme inicia como uma comédia, contando sobre a vinda de Ben Braddock (Dustin Hoffman) à casa da família para sua “recepção” por ter sido aceito em uma faculdade de prestígio. Nichols conta isso em apenas uma longa sequência que passeia pela residência dos Braddock. Aqui os mais velhos são geralmente conhecidos pelo seu sobrenome. Dessa forma temos Mr. e Mrs. Braddock (William Daniels/Elizabeth Wilson) e a família do sócio de Mr. Braddock, Mr. e Mrs. Robinson (Murray Hamilton/Anne Bancroft). Estamos falando de uma classe rica já acostumada a mandar em pessoas, e o filho representa um bichinho da casa que é estimado por todos.

Em apenas cerca de 10 minutos são colocados no mesmo quarto Ben e Mrs. Robinson (com ela nua). Ben Braddock, com seus trejeitos, sua fala e seu modo de pensar sugerem, é virgem (“surpresa” essa já estragada no título nacional). Mrs. Robinson, igualmente fácil de traduzir, é uma alcóolatra que tenta seduzir o jovem rapaz. Ela trata-o também como um bichinho de estimação, para satisfazer seus anseios sexuais. Enquanto se sentem orgulhosos por Ben, os Robinson também esperam ansiosos pelo retorno de sua única filha, Elaine (Katharine Ross), que poderia ser uma ótima candidata para uma união formal entre as famílias. O que eles não esperavam era que essa relação inter-famílias e extra-conjugal viesse de outro lugar.

O roteiro adaptado por Calder Willingham (que também escreveu Glória Feita de Sangue, de Kubrick) e Buck Henry a partir do livro de Charles Webb passeia em um fluxo contínuo pelos acontecimentos, onde praticamente tudo é relevante para o desenvolver da história. Podemos dizer que sua primeira metade é engraçada (principalmente quando Ben tenta conseguir um quarto para que ele e Mrs. Robinson possam finalmente ter a sua primeira noite), mas o humor está espalhado em referências e detalhes, que aos poucos vão dando lugar para uma trama que sabíamos que iria acontecer – inclusive Ben – mas que seria impossível evitar. Por quê? O rapaz diz logo no começo: deseja mudar algo em sua vida.

E esse “deseja mudar algo” é uma metáfora das mais inspiradas. Desafiando o status quo através da eterna luta adultos x jovens que ficou bem acirrada naquela época, os adultos também representavam o poder (e eles frequentemente escolhem o que é melhor para a vida de Ben), a religião (que merece uma bela homenagem em seu terceiro ato), o monopólio do sexo. Tudo isso está representado em uma história que caminha por caminho não-convencionais para o mais tradicional dos clichês das ComRom. Às vezes não tem como fugir do formato, mas os bons diretores conseguem extrair ouro do que já está escrito em pedra por tantos anos (e hoje é tão batido).

Até a música de The Graduate remete diretamente àquela época com todo seu ímpeto, sua poesia, sua narração bem próxima do personagem. Cantada pela dupla Simon & Garfunke e tendo a versão instrumental por Dave Grusin, meio que se torno o hino de uma geração. Ao contrário do que você pode pensar, não é sobre nerds virgens, mas sobre homens que desejam retomar o controle de suas vidas. Controle esse constantemente nas mãos dos pais. Bom, chegou a hora da retomada. Diferente dos igualmente importantes filmes de John Hughes sobre os conflitos adolescentes, é a glória juvenil homenageada e inserida em uma sociedade que já está com os dias contados.

Com tudo de errado representado pelos “adultos” e a liberdade cantada e descrita pelos movimentos desarticulados do frenético e brilhante Dustin Hoffman, encontramos no final de um túnel de reflexões um turbilhão de emoções, onde uma cruz, um parapeito e um ônibus conseguem em menos de alguns momentos representar uma das sequências mais belas produzidas pelo Cinema. É cafona, assim como a época, e é por isso que funciona do começo ao fim. E, ironicamente, envelheceu como ninguém.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-06-16 imdb