A Princesinha

Mar 23, 2014

Imagens

É muito bom de vez em quando levar um tapa na cara dos gêneros menos “louváveis” como essa aventura/fantasia que abraça completamente o clima de conto de fadas. Dirigido pelo ainda jovem talento Alfonso Cuarón em 95, é um filme para chorar, com momentos dramáticos extremamente angustiantes, ainda que a heroína seja uma criança, mas que, depois de viver na Índia, é entregue aos cuidados de uma escola para garotas em Nova Iorque para que seu pai viúvo sofra as agrúrias da guerra.

Ainda assim, tive que escorrer minhas lágrimas também para as diferentes virtudes técnicas que encantam tanto ou até mais que a “historinha”, como as transições inteligentes, sutis e significativas entre o mundo humano da guerra e faz-de-conta alimentado pela pequena Sara (Liesel Matthews) em uma escola cheia de regras. Note a troca de cenas entre uma carta manchada com lágrimas e sendo molhada pela chuva (e, na mesma cena, uma janela ensolarada e a cabana com trevas do lado de fora) ou o ataque aéreo ao fronte seguido de um apagar de velas fúnebre que prenuncia uma triste notícia.

E não é apenas a montagem ou o uso da câmera de Cuarón que encantam. Marcando precisamente o tom da narrativa através de cores e de uma direção de arte fascinante e cada cena, o verde simboliza aquele mundo regrado que obedece as regras do dinheiro (e miseráveis aparecem perambulando e trabalhando pelas ruas, crianças ou não) e o amarelo a esperança e a alegria (não à toa, pois o que simboliza a Índia na américa é seu clima quente e ensolarado).

O figurino, por sua vez, despersonaliza aquelas meninas de uma tal forma que, ainda que a jovem faxineira Becky (Vanessa Lee Chester) seja uma criança vestida com trapos, parece ser a única a exibir um pouco de personalidade crítica, uma atuação e tanto para sua idade em um elenco que está afiadíssimo. Note como A Princesinha não é um filme com dotes cômicos, mas curiosamente consegue criar uma sequência do resgate do medalhão que possui um timing impecável e constitui um momento tão engraçado quanto memorável.

Sendo um filme a respeito do poder da imaginação, a história nem de longe é contemplativa. Sara, apesar de parecer viver sonhando, leva suas crenças para o mundo real, contando histórias maravilhosas e reerguendo sua dignidade com o pouco que lhe resta (o momento mais forte é quando ela e sua amiga imaginam um banquete). O momento que junta coração e técnica é quando a ríspida Miss Minchin (a caricata Eleanor Bron) fala com a pequena Sara no sótão, um movimento de câmera de Cuarón que explica em 20 segundos porque ele é um diretor de respeito: note como a câmera assume a posição característica de quando um adulto fala com uma criança (câmera alta para a criança, baixa para o adulto, ilustrando o ponto de vista dos interlocutores); note, então, conforme o discurso muda, como a câmera coloca, ainda que aparentemente sem lógica, a pequena Sara em uma posição acima da ameaçadora Miss Minchin, em uma espécie de inversão racional que é permitido em um filme como esse.

Beneficiado por um roteiro que se preocupa com a resolução de todas as pontas — embora dê seus pequenos tropeços/pecadilhos no final — e uma trilha sonora simplesmente impecável por resgatar o conto de fadas através de toque melancolicamente sutis, A Princesinha é um trabalho requintado e cheio de alma, digno de ser visto mais de uma vez.

Wanderley Caloni, 2014-03-23. A Princesinha. A Little Princess (USA, 1995). Dirigido por Alfonso Cuarón. Escrito por Frances Hodgson Burnett, Richard LaGravenese, Elizabeth Chandler. Com Liesel Matthews, Eleanor Bron, Liam Cunningham, Rusty Schwimmer, Arthur Malet, Vanessa Lee Chester, Errol Sitahal, Heather DeLoach, Taylor Fry. IMDB.