A Qualquer Custo

Este é um filme texano no sentido mais texano da palavra. Ele exibe contemporaneidade usando a crise de 2008 como pano de fundo de uma dupla de irmãos que trazem de volta o fantasma de Bonnie e Clyde em um formato totalmente novo, mas realista, intenso e dramático. Tudo isso em um policial dos bons, que usa a ação a seu favor e que ainda se beneficia pela presença de Jeff Bridges, que cria personagens paradoxais a cada filme que participa.

Bridges seria tudo de ruim que as pessoas do politicamente correto de hoje veem, e mesmo que você tenha uma certa flexibilidade com as palavras irá notar que seu personagem faz ataques gratuitos a seu parceiro simplesmente pelo fato dele ser mestiço de índios e mexicanos. Ele nem parece conhecê-lo de verdade, já que todos os comentários de Bridges giram em torno da raça de seu colega policial, seja seu passado, seus comportamentos, o que aconteceria se ele morresse (“você me vingaria, depois de encher a cara, como vocês índios costumam fazer”), e até sendo cristão seu personagem demonstra intolerância religiosa até pelo fato de seu parceiro ser católico. Se existe algum personagem para odiar neste filme, Bridges é o cara.

Porém, por motivos cuidadosamente escolhidos pelo ator e pelo roteiro original e minucioso de Taylor Sheridan, o personagem de Bridges consegue exibir esse seu lado desprezível ao mesmo tempo que emana um certo tipo de carisma, ou simpatia por pessoas mais idosas e vulneráveis, e um pouco de reverência à sua inteligência, que embora não esteja no patamar que ele próprio acredita estar, pelo menos se encontra a milhas de distância de todas as pessoas daquelas cidadezinhas que os dois policiais vão visitando, além de estar visivelmente acima de seu parceiro e todo o resto da força policial.

Essa inteligência é dedutiva, baseada em observações perspicazes, e mais uma vez, ancoradas em um roteiro pé-no-chão que consegue exibir essas características de seu personagem irreverente sem soar exagerado. Quando soa exagerado, sabemos que o é, tal como o próprio clichê que Bridges participa: o do policial que está para se aposentar e vai pegar seu último e difícil caso.

Por outro lado, os personagens de Ben Foster, o irmão mais velho e maluco, já fichado e preso por 10 anos, e o personagem de Chris Pine, o caçula que também andou aprontando na vida, mas nada muito grave, são como dois extremos que se equilibram para um bem maior. Após a morte de sua mãe, os dois partem para uma missão que na mente dos dois parece clara e objetiva, mesmo que o personagem de Ben Forster não seja lá uma figura muito previsível. Esquentado desde o início (“fale de novo que eu sou idiota”), nunca sabemos para onde a ação será levada graças à sua performance evasiva, de um beberrão que já se esqueceu que tem a possibilidade de reconstruir uma vida. Ele está fazendo isso pelo irmão. Ponto. Um pouco pela falecida mãe, com quem não conseguiu uma conexão devido à sua vida de crimes.

Já o personagem de Chris Pine, o que menos fala dos principais, desempenha todas suas características justamente pelo jeito calado, com uma expressão que denota não muita inteligência, mas perspicácia e obstinação suficientes para aguentar o irmão e levar tudo adiante, não importando os riscos cada vez maiores. Se seu irmão mais velho quer lhe ajudar, este quer simplesmente construir um futuro para seus filhos. O único momento onde temos um diálogos que vale à pena ele está conversando com um deles, e demonstra uma sabedoria dos mais brutos ao aconselhar o menino ao não seguir os passos de seu pai (ou de seu tio). O personagem de Pine é cativante do começo ao fim, e é ele que verdadeiramente exibe o lado “Bonnie e Clyde” da dupla.

A direção de David Mackenzie mostra que está ali, possui uma personalidade forte, mas nem por isso exagera sua narrativa. Começando com uma longa sequência que gira a câmera constantemente, Mackenzie aos poucos vai assentando a câmera, utilizando melhor os ângulos, em um filme que constrói a potência de sua ação no drama reflexivo, em uma dualidade de ritmos que é apaixonante, já que tanto a ação quanto o drama no filme são necessários um ao outro. Sem o drama, a ação é, como sempre, descerebrada. O drama equilibra essa equação. Porém, para termos drama é necessário um diretor que saiba parar sua câmera de vez em quando. E Mackenzie é o cara para este trabalho.

Com aspectos técnicos que conseguem criar uma atmosfera texana desde as cidadezinhas de uma rua, a planície sem fim (e belíssima) e uma trilha sonora que alia a empolgação da discografia cultural do Texas com a dramaticidade dos momentos mais ousados na história, este é, sobretudo, um filme texano. Ele tem o espírito da liberdade e da brutalidade. Pessoas andam armadas por todos os lados; e sabem atirar. Assaltar bancos não parece uma boa ideia em um lugar como esses, a não ser que você tenha um bom plano, como os irmãos Howard.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-12-08 imdb