A Repartição do Tempo

Jan 17, 2018

Imagens

Todos querem fazer piada com a burocracia e ineficiência de Brasília. Vamos lá, é como chutar cachorro morto. E todos querem ainda usar os xingamentos que aprenderam no Facebook: petralha e comunista. Tanto é que uma equipe inteira que recebeu dinheiro para isso decidiu fazê-lo na forma de filme. E, aparentemente, nem eles parecem levar muito a sério o que fizeram. Não dá pra culpá-los. A Repartição do Tempo usa em sua história uma máquina do tempo e o prédio de invenções e patentes (risadas incontroláveis), uma das divisões mais inúteis e ineficientes do Estado (como se eles estivessem competindo). O resultado é uma piada sem graça contada várias vezes. Se me dizessem que filme é 100% estatal, eu não duvidaria.

Os roteirista Davi Mattos e Santiago Dellape (que dirige) criaram uma historieta de um sujeito que trabalha no tal departamento de patentes e que ao levar um suposto protótipo de máquina do tempo para ser arquivado na sala da bagunça acaba ativando a tal máquina. Começamos a ver que entramos em uma furada quando não sabemos por que ele fez isso. Ao final, nem o filme sabe.

O que acontece então é que o diretor do tal departamento observa as câmeras do local (pra quê câmeras de segurança em um prédio inútil?) para analisar o acontecimento bizarro desse funcionário viajando no tempo. Ele é um desses sujeitos que exalta a meritocracia, o trabalho duro e está totalmente perdido trabalhando para o governo. Descobrimos depois que ele é filho de uma senadora, o que não faz muito sentido, já que sendo quem é ele nem precisaria se esforçar em ir ao seu local de trabalho. Afinal, estamos em Brasília, e os únicos que trabalham lá são garis e faxineiras.

Daí a história envolve clones temporais, um grupo de funcionários que é quase um clone de algum programa de TV humorístico e mais algumas estripulias. Tudo manjado e tudo previsível. O que não é previsível é o tamanho das piadas que não funcionam, como a dupla de policiais, entre eles Dedé Santana (perdido por lá) em uma enquete que não funciona do começo ao fim. No final o que temos é apenas um resultado no filme: vergonha alheia do Dedé.

O diretor Santiago Dellape ignora o embuste e parte para uma história sem pé nem cabeça e onde sequer a localização de um certo local, primordial na história, é conhecido. É usado um sistema de tubulações capenga que não faz o menor sentido na história (afinal se trata de um abrigo nuclear com sistema de ventilação compartilhado com o resto do prédio), onde um incêndio pode terminar em tragédia.

Por final, fica a dúvida: se o inventor da máquina do tempo sabia que ela funcionava (ou ele simplesmente juntou todas as peças e nunca apertou os botões?) porque diabos ele iria patenteá-la? O objetivo que a maioria (todas?) as pessoas do mundo patenteiam coisas é por vantagem competitiva e para ganhar dinheiro. Você inventa uma máquina no tempo em 2018 e não pensa simplesmente em voltar alguns anos, comprar bitcoins e voltar bilionário? Como diriam na internet: jênio!

Wanderley Caloni, 2018-01-17. A Repartição do Tempo. IMDB.