A Rosa Púrpura do Cairo

Dec 16, 2013

Imagens

Woody Allen parece dirigir tantos filmes que seus temas começam a girar em torno do seu próprio processo criativo. Se isso fica óbvio no excelente Desconstruindo Harry, fica fascinante a manipulação e as críticas desse processo em A Rosa Púrpura do Cairo, onde um dos personagens de um filme sai da tela ao se apaixonar por uma espectadora que viu o mesmo filme por várias vezes.

Como isso é possível já é uma ironia por si só. Estamos na época da Grande Crise e da Grande Guerra (“isso nunca aconteceu antes”, “tudo pode acontecer em New Jersey”), e a jovem Cecília (Mia Farrow) tem um marido que a bate e fica jogando todo o dia, vivendo às custas dos esforços da esposa. A maneira de escapar desse mundo para Cecília é, como para muitos, ir ao cinema assistir filmes que, como costumavam ser na época, sobre grandes luxúrias da vida abastada ou aventuras em lugares exóticos (daí o título), justamente atendendo os anseios de um público miserável que precisava de um pouco de magia para enfrentar a dureza daqueles dias.

E magia é o que acontece quando é quebrada a quarta parede desse mundo ideal, fazendo o personagem caçador/aventureiro Tom Baxter (Jeff Daniels) sair do filme assitido tantas vezes por Cecília para fazer parte do seu mundo. A cena para, os outros personagens não sabem o que fazer. Começam a dialogar com o público. Algumas pessoas começam a reclamar que o filme é “parado demais”, enquanto outras apontam que “antes o final era diferente”. É instaurada uma crise no mercado cinematográfico e o produtor e o ator responsável por sua criação, Gil Shepherd (Jeff Daniels), precisam resolver esse impasse antes que outras projeções do mesmo filme distribuídas por todo o país sejam prejudicadas da mesma forma.

Mais curioso do que o próprio acontecimento é a maneira como aquele mundo o trata, como um problema a ser resolvido e como uma rebeldia que poderia muito bem ter vindo de algum comunista/anarquista maluco. Quando os personagens do filme dentro do filme começam a se questionar a necessidade de um roteirista e direção os dizendo o que fazer, podemos entender como uma crítica direta à máquina ininterrupta de fabricar filmes que Hollywood se transformou. Uma máquina de ilusões, como o próprio nostálgico e necessário final conclui sem qualquer diálogo.

Wanderley Caloni, 2013-12-16. A Rosa Púrpura do Cairo. The Purple Rose of Cairo (USA, 1985). Dirigido por Woody Allen. Escrito por Woody Allen. Com Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Irving Metzman, Stephanie Farrow, David Kieserman, Elaine Grollman, Victoria Zussin, Mark Hammond. IMDB.