A Sombra do Inimigo

Alex Cross, aqui chamado de A Sombra do Inimigo, é daqueles filmes que apostam em sua própria esperteza. Como não poderia deixar de ser, cai em sua própria auto-indulgência e como consequência é incapaz sequer de trilhar uma narrativa decente que nos faça acompanhar o drama vivido pelo seu personagem-título.

Vivido pelo ator/diretor/roteirista Tyler Perry, o policial Alex Cross é dotado aparentemente de faculdades dedutivas que lembram Sherlock Holmes – artifício demonstrado apenas no anúncio da gravidez de sua mulher e abandonado logo depois. Junto com seu companheiro Thomas (Edward Burns) precisa investigar a origem de um quádruplo assassinato ocorrido em uma casa de um bairro milionário. Ao mesmo tempo, decide se candidatar a um cargo burocrático em outra cidade para ter mais tempo para sua família, o que o coloca na mesma situação de tantos outros policiais come seu último caso “na ativa”.

Após se encontrar cara-a-cara com o assassino (Matthew Fox) que foi apelidado despropositadamente como Picasso por conta dos desenhos que costuma deixar na cena do crime e cuja arte remete ao estilo do pintor, Alex acaba tendo que enfrentar o ódio do sujeito de frente, pois os policiais acabam se tornando alvos acidentais. O motivo dele querer infringir dor a todas as suas vítimas nunca fica claro, mas é cristalino a sua estupidez pelo modus operandi do seu primeiro crime, onde foi deduzido pelos detetives que ao paralisar uma moça que claramente não consegue falar, Picasso torturou sua vítima para que esta “falasse” a senha do seu laptop.

No entanto, esses pequenos furos de lógica são pecadilhos perto dos diálogos completamente pedestres que somos obrigados a ouvir, entre eles “está doendo”, “te pegamos”, “isto é um estacionamento” (quando todos em volta já sabem disso) e por aí vai a valsa. Tudo isso contribui para a fragilização cada vez maior da história, que não consegue em momento algum criar um nível de tensão eficiente, pois com esses deslizes aliado ao uso de uma câmera que insiste em tremer em toda cena de ação torna muito difícil acompanharmos qualquer coisa.

Se bem que, ainda que conseguíssemos entender o que há por trás de uma trama tão básica, previsível e incoerente em todos os seus detalhes, não haveria prazer algum em constatar o óbvio.

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2012-12-22 imdb