A Teoria de Tudo

Não dá para dizer que o novo filme de James Marsh, que ganhou o Oscar pelo excepcional O Equilibrista e teve seu Projeto Nim rodando os festivais do mundo e ganhando prêmios, faz qualquer injustiça à vida de Stephen Hawking, o brilhante físico teórico que foi acometido por uma doença neuro-motora desde quando jovem, mas mesmo assim conseguiu dar progresso não apenas à sua vida profissional como pessoal. Nem podemos dizer que o ator Eddie Redmayne (Os Miseráveis) faz um mal trabalho retratando o cientista. Porém, há uma maldição que parece rondar toda cinebiografia de pessoas que ainda vivem: o endeusamento de um ícone acaba desumanizando o personagem, o tornando uma mera sombra de um indivíduo (o mesmo pondendo ser dito de sua esposa, cujo livro foi a base para este filme), indivíduo este que para se tornar a figura famosa e amada com certeza teria muito mais facetas que justamente os fãs gostariam de conhecer.

No entanto, o filme se resume em narrar burocraticamente o período da vida de Stephen quando estava se formando em Cambridge e conhece sua futura esposa e passam a ter uma vida de casados após ele descobrir que teria pouco tempo de vida devido à doença já citada. Burocraticamente por não tentar construir qualquer coisa além disso, o que já o torna emocionante em alguns momentos, mas nunca empolgante ou instigante. Não há qualquer relação entre a vida do físico e a vida do pai de três filhos preso à cadeira de rodas. Mas há um questionamento bobo a respeito da não-religiosidade de Hawking e seu destino pouco gentil com sua pessoa.

O que, convenhamos, ocupa tempo demais em tela para uma vida disposta a quebrar conceitos estabelecidos décadas atrás pela ciência. E a própria caracterização da ciência no longa carece de sutileza em simplificações e momentos catárticos inevitáveis, mas forçados. De qualquer forma, não deixa de ser notável a maneira com que o filme exibe o preconceito inicial da comunidade científica frente a novas ideias como a Radiação Hawking. Também não deixa de ser emocionante o momento que Hawking decide escrever seu primeiro livro.

O drama também é competente em dar contorno à figura teoricamente multifacetada da esposa. E teoricamente é a palavra porque, apesar dos notáveis e admiráveis esforços de Felicity Jones, sua Jane Hawking permanece um mistério do começo ao final do filme. E seu relacionamento com o professor do coro da igreja local soa desculpável demais (mais um sintoma de biografias de gente viva).

Dito isto, não há como notar Eddie Redmayne se remexendo todo e demonstrando com uma passagem do tempo admirável todo o longo e doloroso processo pelo qual Hawking foi descobrindo que sua morte não viria tão cedo, e sua vida não continuaria tão fácil. Redmayne consegue manter a figura do físico teórico intacta, mas é incapaz de acrescentar algo além do gênio de cadeira de rodas e voz metálica.

Frustrante por nunca conseguir lançar asas para seus interessantíssimos personagens, A Teoria de Tudo, assim como a teoria que leva o nome, se assemelha à própria teoria sonhada por Hawking, Einstein e tantos outros: incompleta, ainda que supostamente elegante.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2018-01-11. A Teoria de Tudo. IMDB.