A Travessia

A liberdade é uma coisa engraçada. Quando a perdemos através do medo, isso cria os mais diversos níveis de negação, fazendo-nos chegar ao cúmulo de aceitar o máximo de segurança pelo mínimo de liberdade, sendo que, ironicamente, acabamos perdendo ambos.

Não deixa de ser, portanto, um grito de liberdade o que o novo filme de Robert Zemeckis faz. Catorze anos após o atentado que derrubou as Torres Gêmeas de Nova Iorque e que aterrorizou uma nação, a história do homem que ousou ultrapassar os limites de segurança estabelecidos pelas autoridades do local onde os arranha-céus haviam acabado de ser construídos é recontada. Sim, já temos O Equilibrista (2008), um documentário de arrepiar os cabelos que conta a mesma trajetória do francês Philippe Petit em arquitetar seu plano de atravessar um cabo colocado no terraço dos prédios. No entanto, aqui, apesar da história ser a mesma, ela é contada através da já conhecida habilidade do diretor em usar efeitos visuais para tornar as cenas mais naturais, ainda que aqui o objetivo seja torná-las fantásticas (e apenas a lembrança de diversos momentos em Forrest Gump é o suficiente para nos lembrar da capacidade do diretor para tal).

No entanto, além de ser uma produção tecnicamente mais ambiciosa que seu parente documental, o enfoque filosófico da trama é muito diferente, o que justifica o “grito de liberdade” que julgo pertencer ao projeto. Começamos a narrativa com Philippe na tocha da Estátua da Liberdade contando como seu sonho de realizar esta façanha nasceu antes mesmo das torres terem sido terminadas. Malabarista natural, sua fascinação por equilibrar-se em cordas nasceu quando viu a família circense do patriarca Papa Rudy (Ben Kingsley, sutil e curioso) realizar seu número na frente de uma plateia impressionada.

Mestre em transições, Zemeckis compõe então uma das introduções mais dinâmicas e elegantes de sua carreira. Sumindo com elementos em cena e trazendo outros cenários no fundo, logo vemos o pequeno Philippe treinando no quintal da casa dos pais usando quatro ou cinco cordas alinhadas por um ancinho, que vão aos poucos sumindo, e logo já estamos em uma das praças de Paris, onde o agora jovem Philippe realiza seu número, sempre protegido pelo seu círculo perfeito desenhado no chão, a área onde ninguém do público pode invadir. E é quando ele sai desse círculo que ele conhece Annie (Charlotte Le Bon), seu par romântico e sua primeira cúmplice no plano mirabolante. O filme vai compondo a equipe responsável pela façanha usando transições que avançam cada vez mais no tempo, sendo que não sentimos o tempo passar, mas percebemos que Philippe vai ficando cada vez melhor em sua arte, até estar pronto para arriscar atravessar as duas torres da Catedral de Notre Dame, sua primeira experiência.

E por falar em arriscar, o filme explora o digital como se não tivesse diferença com cenários reais, tornando diversas passagens plásticas. Porém, ancorado na introdução fantasiosa de Philippe, magicamente disposto no topo da Estátua da Liberdade, pode-se justificar essa visão fantasiosa da realidade apenas como uma estilização de sua história, que convenientemente permite que praticamente todos os cenários do filme sejam construídos por computador. Os personagens meio que entram nessa dança, fantasiando um pouco além do que seria esperado, e nesse sentido Joseph Gordon-Levitt tem aqui uma de suas melhores performances, ou onde ele melhor se encaixa. Um protagonista à altura do projeto, Gordon-Levitt tem aquele tom jovial, mas ainda assim obstinado, e toda a energia que ele utiliza em seu personagem impulsiona aquela realidade computadorizada para algo além de cenários artificiais.

Mesmo com tanto dinamismo e pouquíssimas cenas lentas, o filme passa muito rápido, e parece avançar obstinadamente – como seu personagem – em direção ao grande final, onde a grande questão sobre segurança e liberdade está presente em uma imensa metáfora e uma sequência de arrepiar os cabelos ao quadrado, já comparando com O Equilibrista. Aqui não temos os mesmo limites do documentário dessa história, que teve que ser bem criativo em suas colagens dos (poucos) registros da época, e se há uma boa chance do 3D funcionar em algum filme hoje em dia, esse talvez fosse um bom candidato, pelas inúmeras sequências em que há uma profundidade de campo imensa e poucos movimentos de câmera.

Porém, efeito nenhum, tecnicidade nenhuma, e nem mesmo a empolgante e grandiosa trilha sonora de Alan Silvestri fariam qualquer diferença se o pano de fundo do filme não fosse esse grito de liberdade, quase como (ou talvez precisamente) uma reação ao ataque sofrido em solo americano. Se os sonhos deram lugar a pesadelos para aquelas pessoas desde Setembro de 2001, A Travessia resgata e engrandece a ambição humana de ser livre para ousar, independente do que as autoridades digam e independente da cidadania que a pessoa tenha – apesar da liberdade ter sido por um bom tempo uma bandeira quase 100% norte-americana. Mais do que tudo, a liberdade de ousar ser livre, independente do que governos achem melhor, ou das tentativas de vender o medo de terroristas. Qual é exatamente o motivo que Philippe tem para atravessar as torres gêmeas em cima de um cabo? Esse é precisamente o tema do filme: ele não precisa ter um.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2015-12-15. A Travessia. The Walk (USA, 2015). Dirigido por Robert Zemeckis. Escrito por Robert Zemeckis, Christopher Browne, Philippe Petit. Com Joseph Gordon-Levitt, Guillaume Baillargeon, Émilie Leclerc, Mark Trafford, Inka Malovic, Lucas Ramaciere, Martin Lefebvre, Philippe Bertrand, Laurence Deschenes. imdb