A Última Lição
Wanderley Caloni, 2016-12-15

Mais um filme que lida com a decisão das pessoas de exercer o direito sobre o próprio corpo. Dessa vez decidindo quando morrer. E é um filme família, mas de família francesa. O que não quer dizer que é tão denso (ou depressivo) quanto um Michael Haneke (“Amor”), mas claro e didático o suficiente para se tornar importante para o tema.

Até porque a homenageada no filme é uma ativista pelos direitos da mulher (e consequentemente do indivíduo). Madeleine é uma mulher que, já muito idosa e fraca, decide por fim à própria vida, e avisa a família no dia em que se reúnem para festejar seu aniversário de 92 anos. Quer dizer, aparentemente festejar, já que todos parecem mais entretidos com suas próprias vidas, tratando a velha como uma peça da mobília que é bom ter por perto.

Mas acontece que esta peça de mobília tem ideias próprias, e fortes. E nada irá fazê-la mudar de ideia, como os filhos logo sabem. No entanto, isso não os impedem de iniciar o luto com a mãe ainda em vida, cada um à sua maneira. A aceitação da filha, Diane, é o processo que torna o filme um estudo sensível e delicado do tema.

A diretora Pascale Pouzadoux possui uma competência específica nos quadros fechados, o que é particularmente útil quando a protagonista é uma senhora com o alcance físico limitado. A cena inicial, dela tentando colocar novamente um carro em movimento, é um primor nesse sentido. É a primeira cena que já apresenta os motivos que alguém no fim de sua vida tomaria a corajosa, mas racional, decisão de dizer adeus enquanto é dona de seu destino.

O uso de flashbacks e a câmera lenta, e o cuidado no uso da luz para romantizar o tempo que passamos juntos daqueles que amamos é o que torna o filme, ainda que movido a video-clipe que flerta com A Árvore da Vida, uma série de momentos contemplativos a respeito de por que a perda de alguém importante na vida é algo irreparável, mas ao mesmo tempo é bobagem pensar em estender o sofrimento pelo ato egoísta de querermos apenas manter a pessoa responsável por esses momentos. A filha Diane é a que melhor entende isso, e é por isso mesmo que as duas, mãe e filha, resolvem, ainda que de forma inconsciente ou não-dita, que a melhor maneira de passar por esse processo é criar mais desses momentos, e não tentar voltar ao passado.

A Última Lição é um filme para pensar sobre a vida, embora tenho certeza que muitos espectadores também irão chorar. Chorar é um ato involuntário (e infantil) dos que não entendem o valor da vida de uma pessoa que amam para essa própria pessoa, e pensar, ou refletir, sobre essa mesma vida é o único caminho que nos levará à verdadeira liberdade de cada um de nós. Se este filme é um primeiro passo, já será um gigantesco perto da ignorância atual do tema.

★★★★☆ La dernière leçon. France. 2015. Direção: Pascale Pouzadoux. Roteiro: Laurent de Bartillat, Pascale Pouzadoux. Elenco: Marthe Villalonga (Madeleine), Sandrine Bonnaire (Diane), Antoine Duléry (Pierre), Gilles Cohen (Clovis), Grégoire Montana (Max), Sabine Pakora (Victoria), Jonas Dinal (Didid), Xavier Alcan (L'ami), Armelle. Edição: Sylvie Gadmer. Fotografia: Nicolas Brunet. Trilha Sonora: Éric Neveux. Duração: 105. Family. #cabine