A Viagem de Meu Pai

Jul 22, 2016

Imagens

O diretor Philippe Le Guay, com quem já trabalhou com Jérôme Tonnerre em As Mulheres do Sexto Andar e aqui roteirizam uma peça de Florian Zeller, sabe contar uma história do ponto de vista do espectador. Ao quebrar o tempo em fragmentos de passado, futuro e um presente incerto, ele nos transporta para as sensações do velhinho Claude Lherminier, que interpretado por Jean Rochefort de maneira irrestrita, nos entrega um filme sobre como é perder a memória aos poucos, e como pode ser desagradável não saber nem do que você não sabe.

Este é um filme que começa leve, quase como uma comédia misturada com estudo de personagem, mas que aos poucos vira o ambicioso drama que cresce a cada salto temporal. Estamos acompanhando os esforços da filha de Claude (Sandrine Kiberlain) em cuidar do pai e contratar moças que tomem conta dele, ao mesmo tempo que toma conta da empresa que um dia foi dele. A experiência de perder a orientação no tempo e no espaço é trazida em primeira mão pelo diretor e roteirista, mas apenas um ator como Rochefort para compartilhar com a alma.

O filme discute com propriedade de como “se deve morrer” se a pessoa já começa a morrer aos poucos, e qual o sentido de dignidade quando a pessoa se esquece o que é isso. O protagonista é aquele velho que faz perguntas indecorosas, comentários maldosos e bondosos misturados no mesmo discurso – frequentemente em hora errada – e resgata momentos que não existem mais em sua vida (ele clama para que as filhas se falem novamente, esquecendo por completo que uma delas já faleceu).

No fundo, o drama de Claude pode ser observado de fora com várias pessoas que conhecemos em vida, sejam elas jovens ou velhas. Todos têm suas rixas no passado e motivos que não se orgulham, e vice-versa. Querer viver o passado como os velhinhos fazem parece um saudosismo bobo e ingênuo, mas para pessoas como Claude, é a repetição das únicas coisas que restaram em sua mente, que se deteriora a um nível crescente.

A sua viagem para Flórida, onde sua outra filha morava, assim como a insistência em beber suco de laranja apenas desse estado americano, tanto faz um gancho do filme para o mercado internacional como serve bem ao propósito da história, onde há algo não-resolvido em sua vida que se encontra a milhas de distância. Esse algo não existe mais, mas isso não faz a menor diferença.

Criando momentos engraçadíssimos por conta dos problemas de memória e da falta de sutileza do protagonista, A Viagem de Meu Pai consegue ser leve e ao mesmo tempo complexo sem apelar (em demasiado) para o emocional. Há uma frase que resume perfeitamente o filme, próximo de seu final: “ninguém deveria brigar com vinho, assim como com pessoas; é uma perda de tempo”. E o que é o tempo senão o acúmulo de memórias em nossa breve estadia nesse planeta?

Wanderley Caloni, 2016-07-22. A Viagem de Meu Pai. Floride (France, 2015). Dirigido por Philippe Le Guay. Escrito por Florian Zeller, Philippe Le Guay, Jérôme Tonnerre. Com Jean Rochefort, Sandrine Kiberlain, Laurent Lucas, Anamaria Marinca, Clément Métayer, Coline Beal, Édith Le Merdy, Christèle Tual, Carine Piazzi. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.