A Viagem

Feb 18, 2013

Imagens

Há uma belíssima transição em A Viagem quando duas pessoas fogem de sua escravidão e procuram provar o seu valor enquanto ainda se acostumam com o recente status adquirido. A diferença poética dessa mudança de cena é que ela ocorre em espaço e tempo completamente díspars, mas compartilham dos mesmos sentimentos e ideais humanos: a luta pela liberdade.

Ao mesmo tempo em que há beleza na abordagem intertemporal dos três diretores (Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski) — baseada no romance de David Mitchell — também há uma mensagem importante contida no subtexto do que vemos: Autua (David Gyasi) é um escravo africano contido em nossa História nada gloriosa, mas Sonmi (Donna Bae) é uma escrava concebida geneticamente por um estado autoritário em um futuro alternativo. A luta contra a escravidão, apesar de homenageada, assume aqui um olhar cínico e pessimista ao assumir que, mesmo sepultada em nossa História recente, não está descartada entre as inúmeras possibilidades de futuro que podemos gerar a partir de hoje.

Essa brincadeira de mesclar sensações no espaço/tempo das seis histórias contidas em Cloud Atlas consegue a proeza de soar fluida e manter a narrativa em diferentes cenários. Apesar de serem iniciadas de maneira didática e devidamente localizadas com a ajuda de uma legenda que informa o local e a data, aos poucos os seis conflitos se revelam como um só, e seus personagens perdem paulatinamente o que os tornavam únicos. Dessa forma, seja a fuga de um velhinho em um asilo, de um negro africano de sua condição imposta ou de material genético do seu destino pré-fabricado, não há diferenças no que anseiam esses seres, e é isso o que os diretores tentam demonstrar igualando as narrativas, unido-as de maneira cada vez mais coesa a ponto de parecerem estar acontecendo ao mesmo tempo. Ou melhor dizendo: há diferenças, mas o drama humano é enfocado de tal maneira que faz nos esquecer das centenas ou milhares de anos que separam essas pessoas.

Para realizar essa proeza diversos artifícios criativos são aplicados: a música-tema surge dentro da própria história, como uma espécie de símbolo de todas as lutas. A música é um sexteto, o que obriga que tenhamos seis músicos se empenhando para criar a sinfonia de cordas. Da mesma forma, o autor da música escreve cartas para seu amante com um conteúdo que serve perfeitamente como fio narrativo de todas as histórias. Zachry (Tom Hanks), sobrevivente primitivo de um futuro pós-apocalíptico, dá seus pitacos a respeito da sabedoria mística do seu povo. Por fim, Sonmi deixa seu legado em um vídeo que consolida o que estava no ar, mas que ainda não havia sido dito: somos uma gota em um oceano formado inteiramente de gotas.

Os próprios personagens, por serem interpretados pelos mesmos atores — mas não ocupando a mesma função na narrativa — formam um pequeno universo em suas participações alternadas. É relevante que qualquer um dos personagens nunca ocupe uma posição de destaque em cada uma das histórias, mas suportem uns aos outros. As maquiagens, feitas para suportar esta fábula, permitem a nossa identificação das pessoas/atores de acordo com a vontade dos diretores para que isso sirva à história. É por isso que, por exemplo, não sabemos ao certo quem é a imigrante latina que tenta impedir a entrada dos heróis, mas sabemos quem é a esposa do navegante que chega em casa depois de uma longa e torturante viagem.

Nunca permitindo que pisquemos com medo de perder algum detalhe, A Viagem é o tipo de filme que gerará igual ou maior prazer se revisto, tantos são os detalhes a serem admirados ou tantas as interpretações possíveis dos mesmos eventos. Assim que saí da sala de projeção já estava com vontade de ver de novo.

Wanderley Caloni, 2013-02-18. A Viagem. Cloud Atlas (Germany, 2012). Dirigido por Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Escrito por David Mitchell, Lana Wachowski, Tom Tykwer, Andy Wachowski. Com Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James D'Arcy. IMDB.