A Viagem

Há uma belíssima transição em A Viagem quando duas pessoas fogem de sua escravidão e procuram provar o seu valor enquanto ainda se acostumam com o recente status adquirido. A diferença poética dessa mudança de cena é que ela ocorre em espaço e tempo completamente díspars, mas compartilham dos mesmos sentimentos e ideais humanos: a luta pela liberdade.

Ao mesmo tempo em que há beleza na abordagem intertemporal dos três diretores (Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski) — baseada no romance de David Mitchell — também há uma mensagem importante contida no subtexto do que vemos: Autua (David Gyasi) é um escravo africano contido em nossa História nada gloriosa, mas Sonmi (Donna Bae) é uma escrava concebida geneticamente por um estado autoritário em um futuro alternativo. A luta contra a escravidão, apesar de homenageada, assume aqui um olhar cínico e pessimista ao assumir que, mesmo sepultada em nossa História recente, não está descartada entre as inúmeras possibilidades de futuro que podemos gerar a partir de hoje.

Essa brincadeira de mesclar sensações no espaço/tempo das seis histórias contidas em Cloud Atlas consegue a proeza de soar fluida e manter a narrativa em diferentes cenários. Apesar de serem iniciadas de maneira didática e devidamente localizadas com a ajuda de uma legenda que informa o local e a data, aos poucos os seis conflitos se revelam como um só, e seus personagens perdem paulatinamente o que os tornavam únicos. Dessa forma, seja a fuga de um velhinho em um asilo, de um negro africano de sua condição imposta ou de material genético do seu destino pré-fabricado, não há diferenças no que anseiam esses seres, e é isso o que os diretores tentam demonstrar igualando as narrativas, unido-as de maneira cada vez mais coesa a ponto de parecerem estar acontecendo ao mesmo tempo. Ou melhor dizendo: há diferenças, mas o drama humano é enfocado de tal maneira que faz nos esquecer das centenas ou milhares de anos que separam essas pessoas.

Para realizar essa proeza diversos artifícios criativos são aplicados: a música-tema surge dentro da própria história, como uma espécie de símbolo de todas as lutas. A música é um sexteto, o que obriga que tenhamos seis músicos se empenhando para criar a sinfonia de cordas. Da mesma forma, o autor da música escreve cartas para seu amante com um conteúdo que serve perfeitamente como fio narrativo de todas as histórias. Zachry (Tom Hanks), sobrevivente primitivo de um futuro pós-apocalíptico, dá seus pitacos a respeito da sabedoria mística do seu povo. Por fim, Sonmi deixa seu legado em um vídeo que consolida o que estava no ar, mas que ainda não havia sido dito: somos uma gota em um oceano formado inteiramente de gotas.

Os próprios personagens, por serem interpretados pelos mesmos atores — mas não ocupando a mesma função na narrativa — formam um pequeno universo em suas participações alternadas. É relevante que qualquer um dos personagens nunca ocupe uma posição de destaque em cada uma das histórias, mas suportem uns aos outros. As maquiagens, feitas para suportar esta fábula, permitem a nossa identificação das pessoas/atores de acordo com a vontade dos diretores para que isso sirva à história. É por isso que, por exemplo, não sabemos ao certo quem é a imigrante latina que tenta impedir a entrada dos heróis, mas sabemos quem é a esposa do navegante que chega em casa depois de uma longa e torturante viagem.

Nunca permitindo que pisquemos com medo de perder algum detalhe, A Viagem é o tipo de filme que gerará igual ou maior prazer se revisto, tantos são os detalhes a serem admirados ou tantas as interpretações possíveis dos mesmos eventos. Assim que saí da sala de projeção já estava com vontade de ver de novo.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2013-02-18 imdb