A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell

2017/08/25

Scarlett Johansson possui uma beleza natural que encanta tanto pela beleza quanto pelo natural. E nem ela parece conseguir trazer algo de novo ao remake ocidental live-action de um dos trabalhos filosoficamente mais ambiciosos dos últimos tempos. E se nem ela consegue, não serão efeitos digitais nem diálogos em inglês que o farão.

A história é basicamente a mesma mais ou menos dois terços do tempo. A grande mudança está no terço final, onde o filme apela para se enlatar como um filme genérico de ação, dando um gosto estranho na boca de ter comprado gato por lebre.

A protagonista é Major (Johansson), um experimento feito em um futuro distante e diatópico onde um cérebro humano é transplantado para um corpo inteiramente produzido por uma mega-corporação de biotecnologia que já domina o mercado com seus upgrades para humanos. Vista como a singularidade pela cientista-chefe do projeto (uma Juliette Binoche estranhamente no automático), Major é apenas vista em termos de negócio pela empresa que a criou, antropomorfizada por um vilão humano (um erro dar cara a corporações do mal) que usa as palavras arma, propriedade e contrato para se referir ao produto da manipulação humana em seu próprio corpo.

Através desta primeira espécime de um novo tipo de ser é montada uma equipe de operações militares comandada pelo único personagem que fala um idioma Oriental, a mando do governo, e mesmo que existam milhares de referências orientais à cidade onde tudo se passa e os habitantes das áreas mais pobres serem todos orientais, todos os personagens principais são mesmo é hollywoodianos, incluindo a própria Major. Porém, nenhum deles parece ter nada a oferecer além de cópias e referências à obra original. A reverência é tanta que não é possível se soltar.

Dirigido por Rupert Sanders (“visionário” do ótimo Branca de Neve e o Caçador), o roteiro escrito por três pessoas adapta muito mal o mangá de Shirow Masamune, parecendo querer não ofender o original mas ao mesmo tempo sem conseguir oferecer nada além de uma tentativa patética de emular o mesmo universo protagonizado por atores de carne e osso.

A ideia por trás da ocidentalização da trama, porém, parece interessante. O filme tenta soar como uma pseudo-continuação do universo, mas falha miseravelmente quando estabelece os mesmos elementos do original, como um misterioso terrorista que ataca a corporação. Quando tenta algo de novo é para revelar algo além sobre o passado de Major e do terrorista, o que parece tentar suavizar o impacto filosófico da trama, que mexe com as bases fundamentais de auto-identidade e consciência.

Este remake tem tudo para desapontar os fãs do mangá e anime originais em todos os aspectos, exceto sua estilização. Ambientado em um futuro que exagera a tecnologia atual para hologramas em todos os cantos e com uma mescla menos dark de Blade Runner, os tons coloridos da megalópole estabelece um interessante contraste com a parte menos privilegiada da cidade, em suas quase-favelas verticais com cor de terra e seus habitantes amontoados. Em ambos os mundos, porém, nota-se um tom insosso que não consegue trazer alma para um projeto que parece querer ele próprio se tornar um Fantasma na Concha. Só que sem emoções.

★★★☆☆ Ghost in the Shell. USA, 2017. Direction: Rupert Sanders. Script: Shirow Masamune. Jamie Moss. William Wheeler. Ehren Kruger. Cast: Scarlett Johansson (Major). Pilou Asbæk (Batou). Takeshi Kitano (Aramaki). Juliette Binoche (Dr. Ouelet). Michael Pitt (Kuze). Chin Han (Togusa). Danusia Samal (Ladriya). Lasarus Ratuere (Ishikawa). Yutaka Izumihara (Saito). Edition: Billy Rich. Neil Smith. Cinematography: Jess Hall. Soundtrack: Lorne Balfe. Clint Mansell. Runtime: 107. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Action. Release: 30 March 2017. Category: movies Tags: paulocoelho

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