Abra os Olhos

Acabei de ver o original de Vanilla Sky, aquele com o Tom Cruise correndo como um louco. Uma produção espanhola/italiana/francesa, o filme de 1997 conta também com a participação de Penélope Cruz como Sofia, mas diferente do tom experimental em 2001 dado pelo diretor Cameron Crowe (Jerry Maguire - A Grande Virada), a direção madura de Alejandro Amenábar (Os Outros), por incrível que pareça, transforma completamente a narrativa de dois filmes que foram filmados praticamente quadro a quadro.

Eu disse “praticamente”.

A composição de Amenábar conta com o uso acertado de frases-chave (ele também assina o roteiro) que permeiam a vida de César (Eduardo Noriega) de maneira a conseguir trazer à tona mais facilmente os ecos do passado que o protagonista tem que conviver quase como um pesadelo que não se revela. Mais importante, porém, é o maior tempo dado à primeira metade do filme, pois a experiência final não seria tão intensa caso não compreendêssemos em detalhes as relações entre aquelas pessoas.

Porém, o filme vai muito mais além do que um mero jogo de descobrir a sacada do final. A cena na cama entre César e Sofia/Núria, por exemplo, funciona como uma lenda de Narciso às avessas, pois a impotência do rapaz de conseguir fazer sexo com a pessoa que o atrai vira reflexo de sua própria incapacidade de obter sua beleza original de volta. É por isso que essa cena funciona tão bem como clímax dramático, assim como todo o seu desenrolar até o momento no apartamento de Sofia, quando temos o melhor momento do filme.

Não que o filme desanime caminhando para o final, ou que sua metade inicial não tenha nada de mais. Essas duas partes são fundamentais, pois ligam o início e o fim de uma experiência angustiante, e apenas sua existência é que torna as cenas mais tensas tão… tensas.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-01-29 imdb