Abutres

Mar 4, 2014

Imagens

Filmes com Ricardo Darín (Um Conto Chinês, O Segredo dos Seus Olhos) já merecem uma visita. Já filmes do diretor Pablo Trapero (Elefante Branco), que infelizmente é mais realista do que pessimista, exigem uma preparação psicológica para a dor e a depressão que virão por causa da impotência de seus personagens ante uma situação intransponível. Ou, resumindo, como diria Capitão Nascimento: “o sistema é foda!”.

Ambientado em Buenos Aires e tendo como centro dramático o encontro de Sosa (Darín), um advogado que após perder a habilitação se especializou em procurar acidentados ou seus familiares para obter o dinheiro do seguro, e Luján (Martina Gusman), uma médica plantonista que vive o descaso e o estresse de uma rotina que não lhe dá grandes esperanças sobre sua nobre profissão. Os desencontros entre os dois, aliás, nada tem de platônico. Fazem parte do mesmo sistema corrupto e pulsante nas ruas perigosas da cidade grande. A qualquer momento alguém pode morrer ou se ferir, e ambos estarão lá, prontos para socorrer a vítima de uma maneira ou outra. É justo o que Sosa faz com seus clientes, se apinhando em torno da tragédia humana? Se considerarmos a situação do sistema hospitalar filmado por Trapero e uma fala do motorista da ambulância, “encontrar um abutre como Sosa pode ser a melhor coisa a acontecer”.

E o filme basicamente escala as camadas do poder por trás do podre por detrás de cada parede de escritório, cama de hospital ou a sombra de uma esquina qualquer. Mas escala de forma impecável. Quando Sosa e Luján tentam sair desse ciclo mórbido que com certeza o irá consumir até a morte, o filme se torna mais sombrio ainda. Não se trata do bem contra o mal encarnado em pessoas, mas de uma situação deplorável criada por um sistema de saúde falido, muito provavelmente estatal — o que não seria nenhuma surpresa.

Tecnicamente, além de uma fotografia inebriante e que usa a cor de maneira significativa, como Sosa sempre vestir escuro (urubu ou abutre?) e Luján obviamente o azul claro (paz de espírito?), o filme explora duas situações particularmente ambiciosas que concorrem junto com a cena do campo de futebol em O Segredo dos Seus Olhos (Campanella, 2009) como a sequência mais tensa. E provavelmente ambos ganham, porque Abutres trata muito bem do seu clima de urgência, algo primordial para que as cenas tremidas no segundo e terceiro ato funcionem.

E das duas, a sequência final ganha de lambuja, oferecendo minutos de prender o fôlego, e que, mesmo terminando no escuro, sabemos exatamente seu final, pois a mensagem já foi dada em tantos momentos que fica impossível imaginar algo diferente.

Wanderley Caloni, 2014-03-04. Abutres. Carancho (Argentina, 2010). Dirigido por Pablo Trapero. Escrito por Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero. Com Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Fabio Ronzano, Loren Acuña, Gabriel Almirón, José Manuel Espeche, Francisco Acosta. IMDB.