Abutres

Filmes com Ricardo Darín (Um Conto Chinês, O Segredo dos Seus Olhos) já merecem uma visita. Já filmes do diretor Pablo Trapero (Elefante Branco), que infelizmente é mais realista do que pessimista, exigem uma preparação psicológica para a dor e a depressão que virão por causa da impotência de seus personagens ante uma situação intransponível. Ou, resumindo, como diria Capitão Nascimento: “o sistema é foda!”.

Ambientado em Buenos Aires e tendo como centro dramático o encontro de Sosa (Darín), um advogado que após perder a habilitação se especializou em procurar acidentados ou seus familiares para obter o dinheiro do seguro, e Luján (Martina Gusman), uma médica plantonista que vive o descaso e o estresse de uma rotina que não lhe dá grandes esperanças sobre sua nobre profissão. Os desencontros entre os dois, aliás, nada tem de platônico. Fazem parte do mesmo sistema corrupto e pulsante nas ruas perigosas da cidade grande. A qualquer momento alguém pode morrer ou se ferir, e ambos estarão lá, prontos para socorrer a vítima de uma maneira ou outra. É justo o que Sosa faz com seus clientes, se apinhando em torno da tragédia humana? Se considerarmos a situação do sistema hospitalar filmado por Trapero e uma fala do motorista da ambulância, “encontrar um abutre como Sosa pode ser a melhor coisa a acontecer”.

E o filme basicamente escala as camadas do poder por trás do podre por detrás de cada parede de escritório, cama de hospital ou a sombra de uma esquina qualquer. Mas escala de forma impecável. Quando Sosa e Luján tentam sair desse ciclo mórbido que com certeza o irá consumir até a morte, o filme se torna mais sombrio ainda. Não se trata do bem contra o mal encarnado em pessoas, mas de uma situação deplorável criada por um sistema de saúde falido, muito provavelmente estatal — o que não seria nenhuma surpresa.

Tecnicamente, além de uma fotografia inebriante e que usa a cor de maneira significativa, como Sosa sempre vestir escuro (urubu ou abutre?) e Luján obviamente o azul claro (paz de espírito?), o filme explora duas situações particularmente ambiciosas que concorrem junto com a cena do campo de futebol em O Segredo dos Seus Olhos (Campanella, 2009) como a sequência mais tensa. E provavelmente ambos ganham, porque Abutres trata muito bem do seu clima de urgência, algo primordial para que as cenas tremidas no segundo e terceiro ato funcionem.

E das duas, a sequência final ganha de lambuja, oferecendo minutos de prender o fôlego, e que, mesmo terminando no escuro, sabemos exatamente seu final, pois a mensagem já foi dada em tantos momentos que fica impossível imaginar algo diferente.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-03-04 imdb