Advantageous

Este filme possui um conceito interessante com pouco substrato. São pessoas interagindo com uma pintura futurista ao fundo. Quando tudo termina, não há conflito, mas a concretização do que já se esperava no começo.

Gwen é uma mãe solteira que tem que criar a filha, Jules, em épocas difíceis. O ano não é muito claro, mas estamos pelo menos dois séculos à frente. A humanidade parece ter intensificado o que já vemos hoje: crianças cada vez mais maduras mais cedo, terroristas e seus atos aleatórios de vingança aleatória, a privacidade não sendo mais um problema (já que ela não existe, como as luzes azuis dos drones voando à noite e iluminando através das cortinas das casas demonstra muito bem).

Imaginado como um longo conto com símbolos enxutos e estéreis por toda a parte, as amigas de Jules são uma negra e uma loira, e daí já enxergamos a influência de sua diretora de Sao Francisco (logo politicamente correta) Jennifer Phang. Jules é asiática, como sua mãe. Gwen trabalha em marketing, em uma empresa que vende a troca de corpo de seres humanos em uma versão ainda em beta. Quando seu emprego é ameaçado, Gwen concorda com a única opção que lhe resta para tentar sustentar sua filha: ela mesmo se submeter ao experimento e virar a garota-propaganda da transferência de consciência.

Com um ritmo lento, pouca música, quadros pintados, atores inexpressivos em quadros excessivamente longos, o tempo parece não andar em Advantegous. Nem as pessoas. Presas às convenções da época, até os movimentos feministas parecem se entregar a um lugar-comum já previsto séculos atrás (ou seja, o nosso tempo). Com crianças maduras que questionam sua própria existência enquanto sequer suas sobrancelhas franzem, é difícil criar alguma empatia em torno desses seres robóticos.

Seriam eles robôs? Nada faria sentido no filme se o fosse, já que a consciência, que é banalizada em uma operação que visa uma melhor aparência para seus usuários (ou, como a propaganda menciona, uma vida sem defeitos sem as quais todos os sonhos seriam possíveis), sequer possui uma definição clara que a torna matéria de estudo do filme. Houve um erro e agora a mãe de Gwen não é mais a mesma. Como eles sabem? De onde vem tanto conhecimento acerca do que é consciência que permita que o personagem de Christian Bale em O Grande Truque consiga descobrir se o que ele realiza todas as noites é um suicídio ou uma simples transferência de memórias?

Advantageous ignora esses detalhes. Sua principal força motriz é garantir uma crítica vazia a um mundo que hoje é visto como desigual e cuja existência é diminuída. Consegue transformando um conceito até que interessante em um filme chato que se arrasta em cima de sua própria obviedade.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2015-09-20 imdb