Albergue Espanhol

Wanderley Caloni, May 28, 2019

Este é um guia de como fazer um filme sobre sensações da juventude, das relações entre conhecidos que com o tempo se tornam algo mais, algo etéreo, que gera sensações fortes; saudades que se carrega pra vida toda, familiaridade com um tempo que não voltará nunca mais.

Seu protagonista, Xavier (Romain Duris), é um jovem tímido, de pais separados e uma namorada da adolescência (Audrey Tautou, de Amelie Poulain). Ele decide crescer, fazer uma pós em país estrangeiro para aprender o idioma. Seu sonho quando criança era ser escritor, mas ele parte em uma missão de um ano para conseguir emprego em um escritório. E quando se despede de sua antiga vida, namorada e mãe, segue chorando. Seu choro é um misto de patético com fofinho.

Escrito de maneira autobiográfica e primeiro filme de uma trilogia do diretor Cédric Klapisch (os próximos seriam Bonecas Russas e O Enigma Chinês), Albergue Espanhol deve despertar um sentimento muito bom de amizades passageiras em uma época em que é só isso que temos. Feito com carinho e sinceridade, ele nos mostra que às vezes é tudo o que você precisa na vida.

É difícil fazer um filme que passe essa impressão sem soar cafona, e este consegue, exceto quando usa de colagens excessivas (como nos créditos iniciais), e ainda que não tenha a mínima coerência nem ritmo em fazê-lo, por outro lado este nada mais é que um aspecto da vida real, onde os eventos não seguem um roteiro definido, mas se constrói em uma sucessão de memórias que se conectam.

A história de Klapisch tem até o cuidado de inserir um impertinente neurologista para nos lembrar disso: as memórias que se firmam no hipotálamo. Nunca mais nos livramos delas. E nem gostaríamos. São elas que definem quem seremos pelo resto de nossas vidas.

Esse filme também tem ótimos momentos. É dele a melhor cena pós-balada, quando um grupo de jovens sai pelo resto da noite pelas ruas cantando e vomitado, tudo em uma sucessão caótica de eventos que torna tudo mais rico e mais interessante. Nessa cena que nos dá a impressão exata do efeito do álcool também recebemos a noção exata da amizade ou do apego que se forma orgânico. As pessoas que nos cercam não são perfeitas, mas estão aí, e é o que realmente importa.

Além disso, a direção de arte se aproveita de várias locações espanholas, que se beneficiam do “sol de Barcelona”, para construir uma narrativa orgânica inserida na cidade, ainda que na maioria do tempo seus personagens convivam no pequeno apartamento que lutam para manter alugado.

Por falar nos personagens, sua construção não poderia ser mais caótica e perfeita. Cada pessoa tem seus cacoetes, manias e temperamento, e não precisamos aprender sobre todos eles. Mais uma vez, assim como na vida, nos afeiçoamos com algumas pessoas que fazem parte da nossa vida, e o resto simplesmente está aí.

Falta unidade nO Albergue Espanhol, mas é isso mesmo o que o torna tão adorável. O que se diz quando os defeitos de um filme soam mais como suas virtudes? Isso se chama amor. A admiração do imperfeito porque é imperfeito, e por isso faz parte de nós mesmos.

Imagens e créditos no IMDB.
Albergue Espanhol ● L'auberge espagnole. França, Espanha, 2002. Dirigido e escrito por Cédric Klapisch. Com Romain Duris, Judith Godrèche, Kelly Reilly, Audrey Tautou, Cécile de France, Cristina Brondo, Barnaby Metschurat, Kevin Bishop. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-28. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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