Albert Nobbs

Não é uma discussão de gêneros, mas da estreiteza da alma humana. Albert Nobbs se torna um personagem de tragédia anunciada, mas nunca deixa de ser fascinante através da pele de uma Glenn Close obstinada em entregar uma figura que teve uma vida tão desesperada, e por tanto tempo, que se acostumou em viver presa em sua jaula do dia-a-dia, enquanto ajunta pacientemente centavos e xelins para uma dia viver a vida que lhe fora negada desde a infância.

Disfarçada de homem por toda a vida, Albert almeja conseguir se erguer com seus próprios pés, e assim não depender da estrutura da sociedade em que vive, e que certamente lhe colocaria na sarjeta se revelasse quem é, como uma mulher indigna de pertencer a um hotel cuja dona demonstra de todas as formas a pobreza material e espiritual que vem com o inevitável corolário: a mesquinhez como ferramenta de sobrevivência.

Do seu lado, a simplesmente bela e jovem Mia Wasikowska tem uma vida mais “fácil”, não valorizando o bem que possui desde o nascimento. Por conta disso, o desperdiça com um jovem aventureiro (Aaron Taylor-Johnson), que é colocado como vítima das circunstâncias. Essa é a parte da luxúria no filme, mais um pecado capital para harmonizar esse universo carente de virtudes.

A própria Nobbs é um “sujeito” mesquinho e incapaz de se socializar. Não é preciso dizer, ele também é visto como vítima das circunstâncias. Ele quantifica em xelins seu investimento para cortejar uma garota afim de colocar seu plano em prática. E ele simplesmente não consegue fazer uma pergunta direta para a única pessoa que parece ter dado certo nesse mundo: como você conseguiu?

Ingênua por pertencer a um mundo tão fechado que lhe priva de exibir seus próprios seios, mas acidentalmente apreciada como um garçom que possui uma sensibilidade acima da média dos glutões que habita o hotel, incluindo o beberrão amante da dona, que a trai com outra serviçall. Nobbs sabe quais as flores certas para determinada hóspede, e não levanta suspeitas. Não se sabe se isso é um detalhe fantasioso do filme ou a atuação visceral de Close.

A direção de Rodrigo García (do péssimo Passageiros) não faz jus ao conteúdo. Com uma direção de arte que lembra seriados televisivos britânicos como Call The Midwife, pela ausência de recursos e tratamento mais realistas, ou por cenários excessivamente limpos para uma época que muitos morriam de febre, a direção também peca pela simplicidade e leveza que perturba. Porém, a calma com que conduz a história e apresenta visualmente seus personagens e os delírios de Nobbs quase compensam a modesta produção.

Com duas horas de duração, a atuação hipnótica de Glenn Close faz tudo passar como um episódio de seriado, mas com uma profundidade que poucos ousam ter. Os últimos momentos são os melhores, pois não entregam um desfecho fácil – e impossível – e estendem o tema, dando um gostinho de quero mais que se despede com graça e leveza. A feminilidade estava no ar o tempo todo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-03-27. Albert Nobbs. Albert Nobbs (UK, 2011). Dirigido por Rodrigo García. Escrito por Gabriella Prekop, John Banville, Glenn Close, George Moore, István Szabó. Com Glenn Close, Antonia Campbell-Hughes, Mia Wasikowska, Pauline Collins, Maria Doyle Kennedy, Mark Williams, James Greene, Serena Brabazon, Michael McElhatton. imdb