Alexandra

Sokurov parece sempre voltar às relações familiares, especialmente a entre mãe e filho, tão importante na Rússia. Aqui acompanhamos Alexandra, a mãe de um dos oficiais de um grupo de soldados que acampa próximo à fronteira com os eslavos. Não é um filme de guerra, mas sobre a guerra.

Alexandra passeia entre os soldados sem parecer sentir medo ou tensão, que está nos olhos de quem a vê manipular uma arma dentro de um tanque. Desde o início não é possível separar aquela personagem em um cenário tão estranho a ela da figura sempre presente no folclore: a mãe russa, que preza pelos seus filhos, um a um. Há gestos de bondade entre ela, os soldados e os “inimigos”, moradores de um vilarejo que, vejam só, dependem do escambo dos próprios soldados. Mas a ironia não é o foco das lentes de Sokurov, e sim a beleza, onde quer que ela apareça. Nesse filme essa beleza se materializa por onde quer que Alexandra caminhe. Mesmo os escombros dos edifícios onde moram os sobreviventes possui sim sua beleza, uma beleza triste. Já acostumados ao lirismo de Mat y Sin, voltamos a contemplar a beleza dos seus enquadramentos e movimentos elegantes.

Porém, diferente dos trabalhos anteriores do diretor/roteirista que analisam essa eterna relação materna, Alexandra se perde no que quer falar, e utiliza uma trilha sonora solene que, difusa, pouco revela mais do que sua própria elegância em acompanhar os momentos silenciosos, justamente aqueles que nos fazem pensar na vida. Me lembrei da sequência magistral de Felicidade, ainda que a trilha parece ter sido um prenúncio do que veremos em Fausto.

Sokurov encanta por sua simplicidade, embora às vezes apenas isso não baste para nossos olhos ansiosos.

O evento Retrospectiva Alexander Sokurov vai de 22 de maio a 16 de junho de 2013 no CCBB SP.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2013-05-23 imdb