Alias Grace

2017/11/12

Homens retardados, animalescos, vivendo em torno de mulheres histéricas, depressivas ou apáticas. Este é o retrato da história contada por Grace Marks para um doutor, igualmente abjeto, Dr. Simon Jordan. A narrativa de Grace sob os olhos da série da Netflix representa um dos últimos pilares do movimento igualmente abjeto chamado (ainda) de feminismo: a crença marxista que homens e mulheres são definidos através de sua relação de opressores e oprimidos. Da mesma forma que a fantasia de Marx sobre o sistema de classes.

A série dirigida por Mary Harron (Psicopata Americano) possui virtudes estéticas interessantes. Ela nos coloca sob uma névoa, da fotografia de Brendan Steacy, acostumado a terror, que é histórica e dramática ao mesmo tempo, e que se assemelha a um sonho. As sequências temporais são cortadas elegantemente para gerar um efeito atordoante. Porém, nada disso consegue evitar que nos acostumemos com a história de telenovela, graças aos efeitos digitais de baixa produção e uma trilha sonora de Jeff Danna que evoca um mundo estático onde nada muda.

As atuações principais, da frígida Saran Gadon (O Homem Duplicado) e Edward Holcroft (Kingsman), são eficiente em sua caracterização, mas não em sua performance. A dicção empregada por Gadon é robótica, automática, que evita qualquer identificação com um ser humano. Ela é a representante das mulheres na Terra. Já Edward Holcroft prefere não criar personagem algum, ficando na zona de conforto de olhares vazios e contemplativos. E todo o elenco segue mais ou menos esse ritmo.

A história ficionaliza os eventos dos assassinatos de 1843 por Thomas Kinnear e sua governanta Nancy Montgomery no Norte do Canadá, antes da unificação do país. Há um pouco sobre a situação política da época e um pouco sobre como a sociedade funcionava, mais ou menos como os donos de terra europeus pouco antes do capitalismo estragar a abastada e preguiçosa vida da nobreza. Os assassinatos em si são suavizados para a tela. Não há muito gore em cena, apenas relatos e disse-que-me-disse retratados da maneira mais educada possível. E nada é muito chocante. Exceto o filtro da realidade da escritora Margaret Atwood e da roteirista Sarah Polley, que produz a série levantando a bandeira feminista sem pudores. Um vergonha alheia.

O resultado é uma narrativa morna, que dá sono e que não sabe direito aproveitar seu material. Se torna mais do mesmo, com pouca criação e muita dissimulação. Casas feitas em computador, figurinos estilizados demais e personagens inexistentes (exceto o relato histórico). Se você gosta de assistir algo para acompanhar seu chá das cinco… por que não ouvir sobre como eram chatas as mulheres da época?

★★★☆☆ Alias Grace. Canada, 2017. Direction: Mary Harron. Script: Margaret Atwood. Sarah Polley. Cast: Sarah Gadon (Grace Marks). Edward Holcroft (Dr. Simon Jordan). Rebecca Liddiard (Mary Whitney). Zachary Levi (Jeremiah Pontelli). Kerr Logan (James McDermott). David Cronenberg (Reverend Verringer / ...). Paul Gross (Thomas Kinnear). Anna Paquin (Nancy Montgomery). Sarah Manninen (Mrs. Humphrey). Cinematography: Brendan Steacy. Soundtrack: Jeff Danna. Runtime: 60. Gender: Biography. Category: blog Tags: netflix

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