Alias Grace

Homens retardados, animalescos, vivendo em torno de mulheres histéricas, depressivas ou apáticas. Este é o retrato da história contada por Grace Marks para um doutor, igualmente abjeto, Dr. Simon Jordan. A narrativa de Grace sob os olhos da série da Netflix representa um dos últimos pilares do movimento igualmente abjeto chamado (ainda) de feminismo: a crença marxista que homens e mulheres são definidos através de sua relação de opressores e oprimidos. Da mesma forma que a fantasia de Marx sobre o sistema de classes.

A série dirigida por Mary Harron (Psicopata Americano) possui virtudes estéticas interessantes. Ela nos coloca sob uma névoa, da fotografia de Brendan Steacy, acostumado a terror, que é histórica e dramática ao mesmo tempo, e que se assemelha a um sonho. As sequências temporais são cortadas elegantemente para gerar um efeito atordoante. Porém, nada disso consegue evitar que nos acostumemos com a história de telenovela, graças aos efeitos digitais de baixa produção e uma trilha sonora de Jeff Danna que evoca um mundo estático onde nada muda.

As atuações principais, da frígida Saran Gadon (O Homem Duplicado) e Edward Holcroft (Kingsman), são eficiente em sua caracterização, mas não em sua performance. A dicção empregada por Gadon é robótica, automática, que evita qualquer identificação com um ser humano. Ela é a representante das mulheres na Terra. Já Edward Holcroft prefere não criar personagem algum, ficando na zona de conforto de olhares vazios e contemplativos. E todo o elenco segue mais ou menos esse ritmo.

A história ficionaliza os eventos dos assassinatos de 1843 por Thomas Kinnear e sua governanta Nancy Montgomery no Norte do Canadá, antes da unificação do país. Há um pouco sobre a situação política da época e um pouco sobre como a sociedade funcionava, mais ou menos como os donos de terra europeus pouco antes do capitalismo estragar a abastada e preguiçosa vida da nobreza. Os assassinatos em si são suavizados para a tela. Não há muito gore em cena, apenas relatos e disse-que-me-disse retratados da maneira mais educada possível. E nada é muito chocante. Exceto o filtro da realidade da escritora Margaret Atwood e da roteirista Sarah Polley, que produz a série levantando a bandeira feminista sem pudores. Um vergonha alheia.

O resultado é uma narrativa morna, que dá sono e que não sabe direito aproveitar seu material. Se torna mais do mesmo, com pouca criação e muita dissimulação. Casas feitas em computador, figurinos estilizados demais e personagens inexistentes (exceto o relato histórico). Se você gosta de assistir algo para acompanhar seu chá das cinco… por que não ouvir sobre como eram chatas as mulheres da época?

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2017-11-12. Alias Grace. Alias Grace (Canada, 2017). Dirigido por Mary Harron. Escrito por Margaret Atwood, Sarah Polley. Com Sarah Gadon (Grace Marks), Edward Holcroft (Dr. Simon Jordan), Rebecca Liddiard (Mary Whitney), Zachary Levi (Jeremiah Pontelli), Kerr Logan (James McDermott), David Cronenberg (Reverend Verringer / ...), Paul Gross (Thomas Kinnear), Anna Paquin (Nancy Montgomery), Sarah Manninen (Mrs. Humphrey). imdb