Alice Através do Espelho

A deturpada, mas heroica, Alice da Disney. Nem podemos compará-la com o desenho icônico dos anos 50, onde a mocinha era bem próxima de sua irmã literária dos livros de Lewis Carrol. Aqui e em seu predecessor caça-níqueis em 3D do diretor “dark” Tim Burton, Alice é essa feminista tímida que ganha bilheteria aos poucos no cinema hollywoodiano. Passados seis anos desde a primeira produção, já vemos rapidamente o que mudou no panorama comercial da produtora depois de sucessos como Encantados, Frozen e até Star Wars.

Dessa vez dirigido pelo diretor de aluguel James Bobin (Muppets, TV e MTV), este filme claramente faz parte de uma tentativa de serializar o universo através da figura paladina de Alice (Mia Wasikowska), que agora surge sucessora de seu aventureiro pai e que surge igualmente no País das Maravilhas como a salvadora da pátria. Obviamente, esta é mais uma discussão interna de seus problemas de vida, e toda a saga envolvendo o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e sua família escorre obviamente do seu drama pessoal em tomar a decisão de ser uma mulher independente no final do século 19.

Inserindo de maneira equivocada a divertida figura do Tempo como um homem (Sacha Baren Cohen), mas acertando muito mais ao trazer uma Rainha de Copas enfraquecida e também com um drama familiar (este muito mais sincero e lúdico), que se torna praticamente a diversão isolada de todo o filme encarnada por uma enérgica Helena Bohan Carter, “Alice Através do Espelho” em sua maioria se torna um passeio pelas maravilhas que sua direção de arte cria, transformados magicamente em movimento graças à computação gráfica de nosso tempo. É delicioso constatar o ápice dessa arte, seja em duas cores, formas e movimentos, ou até na capacidade de nos inserir em um mundo tão diferente do usual, mas ao mesmo tempo tão próximo.

E se há uma discussão pertinente (se você viver nos anos 80) sobre o “papel da mulher” na sociedade retrógrada da época, além da velha questão da perda de entes queridos e como eles servem de modelos a ser seguidos por toda a vida, tudo isso se perde em uma trama com tensão zero e empolgação de sobra, como podemos notar por uma trilha sonora e uma paleta de cores que insiste em nunca parar por mais de cinco minutos.

Tudo é muito rico e muito vazio em Alice, pois não há tempo para explorar muito mais os personagens do que é demandado pela sede de lucros da Disney, disposta a deturpar a história do espelho do segundo livro para fazer um gancho com um possível “Alice Chronicles”.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-05-29 imdb