Alice no País das Maravilhas

Apr 23, 2010

Imagens

Os experimentos 3D do início da década mostraram pouquíssimas decisões acertadas (Pina, A Invenção de Hugo Cabret), mas muitos caminhos, se não errados, bem tortuosos. Podemos encontrar decisões completamente equivocadas a respeito do uso da tecnologia até mesmo no irretocável Avatar de James Cameron.

Dessa forma, o que dizer do estilizado Tim Burton e seu remake live-action do livro de Lewis Carroll? Seguindo o mesmo entendimento de Cameron a respeito da câmera, o diretor continua usando e abusando do foco, mesmo em um “filme 3D” (estamos ignorando as cópias 2D, já que a produção foi filmada e pensada em 3D). Apenas um exemplo pontual: na cena em que Alice chega na festa de compromisso, vemos as pessoas dançando ao fundo desfocadas, enquanto ela conversa com a mãe em foco, uma situação desnecessária em 3D, pois estamos vendo o ambiente com profundidade.

Já o roteiro de Linda Woolverton, conhecida por clássicos contemporâneos de animação da Disney como O Rei Leão e A Bela e a Fera, dessa vez tropeça em uma trama tão repetida em romances no estilo Desejo e Reparação e seu casamento forçado por convenções sociais que ficamos tão entediados quanto a entediante protagonista. Em compensação, podemos nos divertir nessa festa inicial no mundo real ao encontrarmos características dos personagens que irão ser comparáveis ao mundo fantasioso que Alice está prestes a conhecer, o que é um dos poucos pontos originais e interessantes da história. Para citar um exemplo facilmente reconhecível observe o comportamento das suas amigas, ambas de branco e com diálogos opostos, mas parecidos, e os gêmeos da terra das fantasias.

Seria o tom exagerado das cenas do mundo real fruto da própria imaginação da protagonista, visto que o resto do filme passa dentro de seu próprio ¿sonho¿? Talvez Burton tenha se aproveitado desse ponto de vista para aguçar a visão do espectador para o que estamos vendo é meramente uma caricatura da sociedade da época, assim como vimos em seu muito melhor A Noite Cadáver.

Isso pode ser deduzido inclusive das informações visuais durante o longa, na maioria das vezes com mensagens mais poderosas que seus diálogos (como é comum nos filmes do diretor). Por exemplo, quando seu pretendido pede-a em casamento, a câmera foca em seu sorriso e em seus dentes defeituosos, ao mesmo tempo em que a rainha branca fala sobre seu voto de nunca machucar nenhum ser vivo e uma mosca reluzente passa por ela, quando ela a desfere movimentos com a mão. Nota-se nessa última cena em específico que a intenção de denotar hipocrisia não se restringe apenas ao mundo do mal, mas todos os seres daquele mundo possuem seus lados irônicos de ser.

A fotografia, apesar de encantadoramente surreal, não poderia ser mais óbvia: cores frias no mundo branco e cores quentes, principalmente vermelho, na terra da rainha vermelha. Além, é claro, de brincadeiras simples de cores: quando os soldados da rainha vão em busca da Alice seu braço direito está com uma marca preta do valete, enquanto nas cenas em que ele está ao lado da rainha veste uma marca vermelha, de copas.

Ao final, o barco onde Alice está prestes a viajar para mundos “diferentes” chama-se “wonder”, em alusão à própria terra de maravilhas e ao aspecto intrínseco da história dentro do ego da protagonista, sua visão de mundo e como o mundo é transformado pela sua própria imaginação. Pena que a “imaginação” retratada no filme não conseguiu ser fielmente retratada na promissora, mas não por enquanto, tecnologia 3D.

Wanderley Caloni, 2010-04-23. Alice no País das Maravilhas. Alice in Wonderland (USA, 2010). Dirigido por Tim Burton. Escrito por Linda Woolverton, Lewis Carroll. Com Johnny Depp, Mia Wasikowska, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover, Matt Lucas, Michael Sheen, Stephen Fry, Alan Rickman. IMDB.