Aloys

Oct 21, 2016

Imagens

Aloys é uma viagem fascinante pelo mundo dos efeitos sonoros que criam a realidade em torno dos dois personagens principais. Para esse feito, é necessário uma edição e montagem impecáveis, além de um design de som que prima pela redundância. Redundância essa necessária para que o espectador consiga penetrar no mundo dividido entre todas as pessoas que vivem dentro do mundo interno de cada um de nós.

Tudo começa com uma morte. A morte do pai de Aloys Adorn (Georg Friedrich), um homem estranho e solitário. A maneira com que Aloys encara a perda não apenas do seu pai, mas seu parceiro na companhia de investigação onde ambos trabalhavam, é a mesma maneira que parece que ele vive há um bom tempo. Sendo uma pessoa desagradável a todo momento com todos que encontra eventualmente, como o dono do restaurante onde pede arroz (sempre para viagem), uma menina vizinha sua que o aborda toda hora sobre seu gato (que esconde dos outros), e até uma ex-colega de sala que encontra ao acertar o crematório do pai. A vida inteira de Aloys se resume em filmar pequenas partes da vida dos outros, pessoas e animais, e assistir novamente essas parte no aconchego do seu escuro e solitário lar.

O que muda em sua realidade é quando alguém rouba algumas de suas fitas, e começa a incomodá-lo com a mesma sensação dos que descobrem que estão sendo filmados por ele: a perda da privacidade. Porém, sua privacidade não parece ser invadida externamente, mas internamente. A ladra, não de suas fitas, mas de sua vida em si, parece conhecê-lo tão bem, que é difícil saber quem conhece mais sobre ele mesmo.

O diretor estreante Tobias Nölle parece confiar de maneira quase que incondicional à capacidade do espectador de ir seguindo as pequenas e parcas pistas que vão levando ao desdobramento da história, onde compreendemos que cada pequeno detalhe desenvolvido no início da trama será usado na viagem extra-sensorial que ele desenvolve a partir do momento que Aloys se permite se comunicar de verdade com outro ser humano, nem que seja sonoramente.

Isso abre espaço não apenas para um roteiro (também de Nölle) que é bem amarrado com todo o universo criado pela rotina de seu protagonista, como também, como Cinema, é uma aventura extasiante pelo mundo dos sentidos, onde a edição de som, criada por uma equipe grande, é primordial para o sucesso da empreitada. Note como nós estamos mais sujeitos ao que o som representa a cada nova interação entre os dois, e como isso se reflete no que Aloys enxerga em sua frente, do que o contrário. Isso é quase como um A Conversação misturado com Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, com a diferença que é uma experiência muito mais intensa e interna, que não requer muita trama do lado de fora do que está acontecendo.

O resultado é que se torna um filme que explora de maneira incrivelmente eficiente a questão da solidão e da depressão sem precisar partir para estereótipos vazios. As pessoas envolvidas em “Aloys” não precisam ser pessoas reais para percebemos o quanto de verdade existe em “cada um de nós tem um mundo dentro de si”. Esse mundo pode ou não ser populado por pessoas reais e experiências reais. A questão levantada no filme é a capacidade de viver fora do eu, quase como um desafio.

Wanderley Caloni, 2016-10-21. Aloys. Aloys (Switzerland, 2016). Dirigido por Tobias Nölle. Escrito por Tobias Nölle. Com Georg Friedrich (Aloys Adorn), Tilde von Overbeck (Vera), Kamil Krejcí (Herr Schoch), Yufei Li (Yen Lee), Koi Lee (Herr Lee), Sebastian Krähenbühl (Hauswart), Karl Friedrich (Vater Aloys), Peter Zumstein (Bestatter), Agnes Lampkin (Julie Kramer). IMDB.