Amaldiçoado

Jun 7, 2015

Imagens

Horns é uma fábula contada da forma mais banal possível: a investigação de um crime em uma cidadezinha. Passando por todos os clichês do gênero, a parte divertida é mais ou menos a metade do filme: observar a “maldade” inerente em todo e qualquer ser humano.

Tendo como seu núcleo dramático a relação entre Ig (Daniel Radcliffe) e Merrin (Juno Temple), mas se estendendo a todos os seus amigos de infância, que não saíram da cidade e cresceram e se tornaram os adultos “esperados” de uma sequência em flashback onde estão todos juntos, o assassinato da garota por seu namorado é tido como certo desde o início, dadas as circunstâncias da noite em que foi morta. circunstâncias essas que o roteiro de Keith Bunin baseado no romance de Joe Hill vai contando aos poucos, sem pressa, o que serve pelo menos para manter o interesse médio durante todo o trajeto.

Fora isso, depois que Ig urina e chuta alguns símbolos religiosos no local do crime, começam a crescer chifres demoníacos no rapaz, e as pessoas em sua presença sentem um irresistível vontade de confessar seus desejos mais egoístas, pedindo permissão para Ig para executá-los. Praticamente ninguém se safa da maldição que ele passa a carregar, de forma que ele a usa como virtude para descobrir o verdadeiro assassino de sua amada (mesmo mantendo o suspense, você não acreditou que ele fosse realmente suspeito, não? de qualquer forma, parece que o roteiro acredita que somos, sim, bobos de acreditar nisso).

É preciso dizer que Daniel Radcliffe é perfeito para o papel, que mistura o drama com um certo humor (negro), mas seu personagem é um mero joguete nas mãos de uma história que luta para nunca representar nenhuma ameaça para a visão medíocre de um espectador preguiçoso acostumado a ver e rever a mesma história de assassinato misterioso envolvendo um trio (ou quarteto) amoroso. Por outro lado, se o objetivo ao assistir esse filme é a preguiça de pensar, vá em frente. Está tudo mastigado.

Inclusive a fábula citada. Que Merrin representa um anjo, Ig o diabo, e que toda a mitologia bíblica está enfiada no vermelho constante do filme (como no carro de Ig, nas poltronas da lanchonete) e nos símbolos nada sutis (como a maçã da lanchonete, que chama “Eve”). Até o lado divertido – deixar as pessoas confessarem seus podres – chega em um momento de saturação, pois já nos acostumamos com isso e não tem mais graça.

Concentrando seus piores momentos no final, o filme conduzido por Alexandre Aja (que já dirigiu alguns terrores não muito inspirados, como Piranha 3D) ainda tenta arrancar alguma moral daquilo tudo, mesmo tendo conduzido o espectador durante todo o momento a refletir que não existe mocinho/bandido no universo da história. Seria o menos bandido o mocinho? Por que nunca vemos os podres de Ig, já que sabemos que todos o têm?

Enfim, se seu problema com o filme poderia ser ele questionar suas crenças em bem e mal, fique tranquilo. Amaldiçoado é tão clichê que, mesmo considerando que todos são maus, os menos maus são bons.

Wanderley Caloni, 2015-06-07. Amaldiçoado. Horns (USA, 2013). Dirigido por Alexandre Aja. Escrito por Keith Bunin, Joe Hill. Com Daniel Radcliffe, Max Minghella, Joe Anderson, Juno Temple, Kelli Garner, James Remar, Kathleen Quinlan, Heather Graham, David Morse. IMDB.