Amante a Domicílio

Woody Allen está de volta nas telonas, mas não como diretor. Aqui ele faz o papel de um cafetão que começa a agenciar seu ex-funcionário após o fechamento de sua loja de livros raros. Na verdade, depois de tantos anos, ele é mais do que ex-funcionário: é família. Isso aparentemente não interfere nos interesses comerciais do personagem de Allen, e aí está a primeira piada judia do filme.

Ops, esqueci de dizer. Esse é um filme que gira em torno também, ou principalmente, dos judeus. Allen faz seu próprio papel (de judeu não-praticante), e uma das mulheres que John Turturro agrada — o “garoto de programa” e diretor do filme — é justamente uma judia viúva e solitária. Há também uma relação vista de longe entre Allen e uma senhora negra e seus filhos pequenos — aparentemente sua família —, mas isso nunca de fato faz parte da história, exceto os piolhos de um de seus “filhos”.

O roteiro, também escrito por Turturro, tem diversas tiradas que funcionam em uma comédia romântica leve e que te conduz sem maiores tropeços. Não é um filme intenso, mas é isso o que o torna encantador, pois não precisa pegar na mão do espectador para que ele entre na história. Os acontecimentos simplesmente vão ocorrendo, e quando menos se espera, estamos no centro de um quadrado amoroso. Não que isso importe muito — é um filme leve, lembra? —, é apenas um passeio turístico. Um passeio de luxo, claro, pois conta com o anfitrião de Nova Iorque.

A cena mais intensa, justamente por parar por preciosos segundos no olhar de Vanessa Paradis, é mais uma das inúmeras revisitas pelo mundo antigo, dogmático, mas nem por isso absurdo, dos nossos amigos rabinos. A presença de uma mulher forte é a cereja do bolo desse mundo que muda bem aos poucos, embora nenhuma geração tente não mudar.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2014-05-08 imdb