O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Dec 16, 2014

Imagens

Desde sua estreia oficial no Brasil assisti esse filme já três vezes no cinema (até agora). Curiosamente, em todas elas com a plateia lotada. Treze anos após sua estreia, em minha terceira vez, no interior da Argentina, ao final de uma péssima exibição, o filme foi aplaudido. É um filme fácil, para o grande público, e consequência disso foram suas cinco indicações ao Oscar (apesar de ser falado em francês): roteiro original, fotografia, direção de arte, som e, claro, filme estrangeiro (perdeu para o bósnio Terra de Ninguém).

Também é, entre todos os filmes de Jean-Pierre Jeunet que apela para invencionices (Micmacs, Uma Viagem Extraordinária) o mais orgânico. As estratégias de Amélie Poulain em se aproximar de seu interesse amoroso fazem parte do seu espírito introvertido, cuidadosamente construído no roteiro escrito por Jeunet e Guillaume Laurant desde sua concepção. As descrições e curiosidades, como o que cada personagem gosta e não gosta, ou quantos orgasmos as pessoas estão tendo naquele exato momento, fazem parte do mundo das pessoas que olham o mundo voltados para dentro. Sei-o muito bem, pois eu sou um introvertido. E digo mais: Pierre Jeunet com certeza o é, pois apenas um introvertido conseguiria desviar tanto do seu objetivo e criar subterfúgios que, embora particularmente divertidos, deixam a nossa heroína cada vez mais solitária.

E é nesse embalo da solidão que cria-se o imaginário do Zorro, o eterno justiceiro solitário. Amélie decide fazer o bem (ou procurar a justiça) para as pessoas com base em sua primeira tentativa, a mais catártica e inesquecível: resgata os tesouros de um homem quando criança. A poesia por trás disso seria quase invisível, se não soubéssemos exatamente como foi a infância de Amélie. Cada peça do quebra-cabeças parece jogado ao acaso, mas em revisitas ao filme é possível ver que, quase que como por coincidência (sabemos que não), tudo tem sua razão de ser. Até se você observar que Amélie precisa ir tarde da noite roubar o anão de jardim de seu pai para perder o metrô e só assim encontrar seu amor vasculhando o fundo da máquina de fotos… essas coisas acontecem às vezes.

Se há uma coincidência no filme é saber que o diretor queria Michael Nyman como o compositor, mas incapaz de consegui-lo, escolheu Tiersen depois de se apaixonar por um CD entregue a ele. Detalhe: Tiersen compôs apenas o tema “La Valse d’Amelie” para o filme, o resto já existia em sua discografia. O resultado é melhor que o esperado: a energia de cada música bate exatamente com cada pequena cena ou sequências inteiras.

Toda a história de Amélie é contada do ponto de vista de um introvertido, e parece que somos muitos nesse mundo. E para nós este é um hino à vida, além de um Grande Filme.

Wanderley Caloni, 2014-12-16. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Le fabuleux destin d'Amélie Poulain (France, 2001). Dirigido por Jean-Pierre Jeunet. Escrito por Guillaume Laurant, Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant. Com Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin, Jamel Debbouze, Clotilde Mollet, Claire Maurier, Isabelle Nanty. IMDB.