História de Horror Americana - Murder House

Nov 28, 2015

Imagens

Pela primeira temporada de American Horror Story (ou História de Horror Americana) pode-se perceber que, apesar de recriar muitas (quase todas) histórias de horror que fazem parte não apenas do imaginário de terror coletivo como foi responsável pelos maiores clássicos do gênero no Cinema, a direção e o roteiro mistos quase sempre referenciam de uma forma tão orgânica essas histórias que fica impossível não apreciar tamanha homenagem que a série proporciona para os fãs de terror.

Ambientado nos tempos atuais, mas com diversos flashbacks que voltam décadas, a história principal gira em torno da família Harmon, formada pelo pai psiquiatra Ben (Dylan McDermott), pela mãe complexada Vivien (Connie Britton) e pela filha única dark-style Violet (Taissa Farmiga). O casal está em uma crise pela traição do marido e tenta reatar a família se mudando para uma casa sombria e cheia de “personalidade” em Los Angeles sendo vendida abaixo de seu valor. Lá eles conhecem mais pessoas do que gostariam — até porque elas aparentemente brotam em volta e dentro da casa — entre elas uma faxineira macabra com dupla… “personalidade” (interpretada tanto por Frances Conroy e Alexandra Breckenridge), um jovem rapaz paciente de Ben que persiste em se manter por perto (Evan Peters como Kit Walker), um homem com metade da face queimada que insiste em se aproximar de Ben (Denis O’Hare, divertido e trágico) e, a quase-protagonista da saga, uma solteirona vizinha que insiste em entrar na casa dos Harmon como se fosse dela mesma, e quanto entra a desgraça parece entrar junto: Fiona Goode (Jessica Lange, “incomodante”).

E esses são apenas alguns dos personagens que são introduzidos nos capítulos iniciais. De uma maneira intrigante, a inserção de novas histórias através do passado da casa onde vivem é o meio empregado pela série para apresentar de maneira muito eficiente tanto novos conceitos de horror quanto novos e fascinantes personagens. É assim que conhecemos os fundadores originais da casa: um médico macabro e genial (Matt Ross, intenso) e sua esposa igualmente macabra, mas trágica em seu destino (Lily Rabe). Da mesma forma, a história do casal gay, entre eles o “Dr. Spock” Zachary Quinto, ou outros personagens secundários, conseguem nossa atenção justamente por estarem ligados à casa e de certa forma influenciarem diversos momentos da narrativa.

Com uma fotografia, figurino e direção de arte que consegue trazer à tona a época em que as histórias acontecem e ao mesmo tempo os personagens dessa época para o século XXI sem muito estranhamento, a maior virtude da série é que o terror e o medo não são tão simples de detectar assim, e podem muitas vezes ser subjetivos. A maldade, porém, está presente quase todo o tempo, e ela é o que definir o “Horror” do seu título, pois para ela não existe saída, não há redenção. O pecado original entre os humanos, transfigurado em rancor, ódio, desprezo e até egoísmo, pode ser quase que visto em volta de personagens malignos que criam momentos mais repugnantes do que as próprias mortes sangrentas e bizarras. É assim, por exemplo, que uma cena final de episódio envolvendo Jessica Lange e Denis O’Hare consiga ser tão perversa sem cair uma gota de sangue. Não é no sadismo físico que American Horror Story mantém seus fantasmas, mas em nossa própria mente. E a mente é uma oficina mais diabólica do que nossos olhos podem ver.

Wanderley Caloni, 2015-11-28. História de Horror Americana - Murder House. American Horror Story (USA, 2011). Dirigido por Alfonso Gomez-Rejon, Bradley Buecker, Michael Uppendahl, Michael Lehmann, David Semel, Howard Deutch, Ryan Murphy, Jeremy Podeswa, Michael Rymer. Escrito por Brad Falchuk, Ryan Murphy, Jennifer Salt, Jessica Sharzer, Tim Minear, James Wong, Crystal Liu, John J. Gray, Todd Kubrak. Com Evan Peters, Jessica Lange, Sarah Paulson, Frances Conroy, Denis O'Hare, Lily Rabe, Emma Roberts, Kathy Bates, Taissa Farmiga. IMDB.