História de Horror Americana - Asylum

Jun 20, 2014

Imagens

A segunda temporada de American Horror Story utiliza outra história, outros personagens — com alguns atores da temporada anterior — e outros dramas. Porém, o que permanece marca registrada da série é a maldade. Não a maldade dos demônios espirituais que dominam as trevas, nem dos E.T.s (se há demônios, por que não aliens?) que nos tratam como ratos de laboratório. Essa maldade é fictícia, metafórica demais para que cause algum impacto além do gráfico. A maior maldade ainda continua sendo a do próprio ser humano. Essa é visível nos olhares da inveja, ódio, loucura, medo. É palpável em suas ações. Rotuladores como seres sociais por natureza, não haveria nada com maior senso de comunidade e solidariedade do que um asilo para deficientes mentais. No entanto, homenageando novamente outra grande obra cinematográfica (estou falando, claro, de Um Estranho no Ninho), o Asilo Briarcliff é um simulacro da nossa sociedade para o estudo da crueldade.

Um pouco de trivia sobre o elenco recorrente (ou não) da série:

  • Evan Peters sempre trabalhou mais na TV até ser “revelado” em 2010 com Kick-Ass, o que lhe rendeu uma das melhores participações na franquia X-Men em “Dias de um Futuro Esquecido”. Em AHS seu personagem inicial é um sociopata, e uma das jogadas de mestre foi escalá-lo como o injustamente acusado de serial killer Kit Walker em “Asylum”, na temporada imediatamente após a “tragédia na escola”.

  • O ótimo Denis O’Hare, infelizmente, não participou da segunda temporada, após seu roubo de cena no primeiro ano como o homem de família que tem metade de sua face queimada (e o corpo) pelo seu filho adotivo e que se transforma no divertido, intransigente e tragicamente cômico Larry Harvey.

  • Outra que ficou de fora do elenco de “Asylum” foi Tarsa Farmiga, que na estreia interpretou a ingênua/irônica Violet Harmon. Porém, assim como Frances Conroy, que fez a empregada da casa e a Morte personificada, sua participação ainda mereceria mais.

  • Dylan McDermott figura nas duas primeiras temporadas, mas na segunda parece quase uma participação especial. São dois trabalhos distintos, mas cercados por uma névoa que impede a conexão que temos naturalmente com outros personagens.

Zachary Quinto dispensa apresentações. Passou a ser mundialmente conhecido (sem contar sua participação em 24 Horas) depois de seu vilão Sylar em Heroes (2006-2010) e hoje é o Dr. Spock do novo Star Trek. Inicialmente interpretando um personagem gay e inseguro, seu Dr. Oliver Thredson como o psiquiatra bondoso que parece ter tudo sob controle flerta com diferentes psiquês dos filmes de horror, e mesmo assim parece único. Seguro de seu papel, Quinto esboça poucos sinais de que Dr. Thredson e Chad são o mesmo ator, mesmo com sua atuação mecânica, que geralmente funciona muito bem em seus papéis.

Lily Rabe iniciou com pontas no Cinema e passou logo a atuar para a TV. Após sua participação nas três temporadas acabadas da série, possui três filmes a serem lançados esse ano e no próximo. Seu papel de estreia, como a Sra. Montgomery, é magistral na forma com que mistura seus trejeitos de falsa aristocracia com o próprio descontrole mental. Sua obsessão por um bebê é o que a torna uma péssima mãe, e esse é um dos inúmeros pontos-chave da sua história. Já na temporada Asylum ela é a Irmã Mary Eunice McKee e possui um arco melhor acabado, ou pelo menos um arco, pois diferente dos personagens da estreia, unidimensionais em sua maioria — mas não menos interessantes — o que me cativou em Asylum foi a tentativa dos criadores de explorar um pouco mais as capacidades de interação daquelas pessoas e com isso revelar mais facetas de suas personalidades.

Sarah Paulson estreou em trabalhos para a T.V., incluindo o horror/drama/thriller da década de 90 American Gothic. Realizou trabalhos menores como “Do Que as Mulheres Gostam”, “Abaixo o Amor” e até mesmo “The Spirit: o Filme” (e recentemente fez uma pequena ponta em 12 Anos de Escravidão, mas quem não fez?). Em American Horror Story a vidente Billie Dean Howard é seu primeiro trabalho en passant, mas sua verdadeira estreia se deu em “Asylum” e a repórter sem escrúpulos Lana Winters. Os escrúpulos, alás, são uma das coisas que faltam na maioria dos personagens da trama. Sua relação com dois seriais killer (e um acusado), porém, a faz tomar a posição dianteira como “experiência curricular”.

Jessica Lange, ganhadora de dois Oscars — por Céu Azul (1994) e Tootsie (1982) — e indicada a tantos outros, estreou no Cinema como objeto erótico do desastroso remake de King Kong (1976, John Guillermin). Tem feito tanto trabalhos para a telona quanto para a TV, sempre realizando trabalhos relevantes. As primeiras duas temporadas da série lhe renderam duas indicações e um Emmy, e participa também da terceira temporada. Em sua estreia fez a vizinha intrometida Constance Langdon, onde seu passado com sua família acabou se tornando um dos temas mais profundos da temporada. Já como Irmã Jude Martin na temporada Asylum foi lhe dado o merecido arco dramático da saga até aqui, onde ela se transforma de uma versão religiosa da enfermeira Ratched (Um Estranho no Ninho) para a mais trágica das pacientes do asilo. A Morte brinca com ela por todo o tempo, mas são as ilusões perdidas que a deixam cada vez mais amargurada.

A série foi criada por Brad Falchuk e Ryan Murphy, os mesmos que criaram Glee. O curioso é que ambos possuem a mesma relação de homenagear e referenciar obras clássicas, seja do terror ou da música. O roteiro fica por conta de cinco roteiristas que praticamente fazem um rodízio entre os episódios (e temporadas). O mesmo pode-se dizer de seu 13 diretores, embora os mais recorrentes sejam três: Michael Uppendahl, Bradley Buecker e Alfonso Gomez-Rejon, este último com 11 episódios.

O roteiro dessa segunda temporada foca novamente em personagens carismáticos pelos seus objetivos, ao mesmo que tenta criar tramas entre esses personagens enquanto desenvolve suas narrativas principais envolvendo basicamente como as pessoas erradas irão sair do asilo e quem (ou o quê) é o verdadeiro mal de Briarcliff. Muitas vezes com enchimentos de linguiça — um problema frequente em séries com demanda por episódios — as melhores partes são realmente as que abraçam a “causa” do terror como forma de diálogo filosófico sobre a maldade humana. Dessa forma, os assassinatos de pessoas mais próximas é o que torna a série empolgante. Não apenas pelos assassinatos em si, mas a forma com que são desenvolvidos e as consequências de cada ato impensado. Nada parece ser sagrado naquele hospício dirigido pela igreja.

Já a direção — e a edição, que também conta com bastante gente — sofre dos mesmos problemas da primeira temporada, investindo desnecessariamente em zooms televisivos, cortes bruscos e uso indiscriminado de ângulos diagonais e uma decupagem que funciona para “criar o clima”, mas não para estabelecer os cenários. A não ser que o objetivo seja não conseguirmos nos localizar pelos corredores do asilo ao longo de quase 13 horas de projeção não é possível sequer saber para que direçaõ fica cada lugar. No entanto, aqui e ali é possível desfrutar de uma abordagem igualmente frenética sem prejudicar a narrativa (como Tom Hooper costuma fazer). Os momentos pontuais bem que poderiam ser mais frequentes.

Entre roteiro e direção quem se salva mais uma vez são os aspectos mais técnicos como direção de arte, fotografia (Michael Goi, principalmente), figurino, trilha sonora (James S. Levine, que também assina Glee e outros trabalhos para TV). Todos esses elementos parecem fazer valer a pena cada nova visita a Briarcliff, mesmo que seja para ouvir mais uma vez aquela música alegre que se contrapõe perfeitamente ao clima desesperançoso da sala de estar do manicômio.

Aguardo não muito ansioso pela próxima temporada (já disponível, se não na Netflix, na locadora Bit Torrent) por medo da direção equivocada e um roteiro mais ou menos esquizofrênico. No entanto, se continuarem as virtudes técnicas e o elenco afiadíssimo, aceitarei mais uma vez uma viagem ao mundo das sombras e dos verdadeiros monstros: a espécie humana no seu pior.

Wanderley Caloni, 2014-06-20. História de Horror Americana - Asylum. American Horror Story (USA, 2011). Dirigido por Alfonso Gomez-Rejon, Bradley Buecker, Michael Uppendahl, Michael Lehmann, David Semel, Howard Deutch, Ryan Murphy, Jeremy Podeswa, Michael Rymer. Escrito por Brad Falchuk, Ryan Murphy, Jennifer Salt, Jessica Sharzer, Tim Minear, James Wong, Crystal Liu, John J. Gray, Todd Kubrak. Com Evan Peters, Jessica Lange, Sarah Paulson, Frances Conroy, Denis O'Hare, Lily Rabe, Emma Roberts, Kathy Bates, Taissa Farmiga. IMDB.