História de Horror Americana - Freak Show

Acho que já disse que AHS não é uma série de terror no sentido convencional – assustar pessoas – mas muito pior do que isso: mostrar o horror implícito no ser humano, e ir às últimas consequências do que a violência de seres egoístas, mesquinhos, vaidosos, orgulhosos e invejosos consegue produzir. E o resultado impressona, mas impressiona muito mais a capacidade dessas pessoas de fazer o mal, quase como se o mal nem precisasse depender dessas pessoas para existir, como se fosse materializado e aparecesse diante de nossos olhos sob a forma de ação, representada pelo horror gráfico, mas com um significado muito maior do que chocar pelo ato em si. É a pessoa responsável pelo ato – ou às vezes apenas a situação – que chocam muito mais.

Nesse sentido ele manteve seu tema na terceira e mais fraca temporada, onde um clã de bruxas contemporâneas lutava pelo poder supremo. Da mesma maneira em sua primeira temporada, onde uma coletânea de fantasmas e estereótipos clássicos do imaginário estadunidense (como o mass killer). E, claro, na ótima segunda temporada e um convento/hospício que atinge os limites do sadismo mantendo o bom humor.

Portanto, nada mais natural que explorar mais uma figura desse imaginário coletivo, dessa vez com um tom mais europeu e na década de 50 na Flórida, com um circo de horrores que contém, seguindo a cartilha básica da série, uma coletânea de “aberrações” da natureza, ou pelo menos como eram vistas na época. Dessa coletânea, ela é enfraquecida com figuras como o mocinho que só tem mãos estranhas (Evan Peters, já se repetindo) ou a alemã de guerra que luta por um sucesso que não lhe pertence (novamente Jessica Lange, a vergonha coletiva que diverte). Ainda assim, o palhaço desfigurado que caça crianças e jovens mulheres à noite, a mulher-anã e sua doçura contagiante, o psicopata milionário mimado (ecos de Psicopata Americano encarnados no ótimo Finn Wittrock) e outros freaks menos impressonantes como a mulher-barbada (Kathy Bates em mais uma atuação interessante) e um homem com braços de barbatana, uma mulher gigante e uma mulher com três peitos (ecos de… deixa pra lá). Com pelo menos uma participação especial de destaque, Neil Patrick Harris (de How I Met Your Mother) faz um ventríloquo esquizofrênico que me deixa incomodado pela sua origem e seu destino trágicos.

Como sempre começando morno, seus episódios televisivos divertem moderadamente, enquanto vão apresentando seus personagens em flashbacks cada vez menos orgânicos e mais expositivos (o primeiro, do palhaço assassino, é o melhor deles). Da metade para o final temos um ritmo mais acelerados graças às mortes que começam a ficar mais frequentes. Porém, seja no começo ou no final, em ambos temos episódios que sobrevivem por si só, escritos não por acaso por James Wong e Jennifer Salt, responsáveis pelos melhores momentos da série em questão de roteiro, auxiliados obviamente por uma equipe de diretores que já se acostumou em mostrar o horror de uma maneira fascinantemente gráfica. Infelizmente, para se “deliciar” com Edward Mordrake (dividido em duas partes), Orphans e Magical Thinking, assistir a temporada toda é uma necessidade, o que não é ruim, e está acima da média de toda a série, mas que se perde em desvios televisivos, como diria um dos personagens, chatos.

Das virtudes técnicas, a que mais se destaca é a direção de arte auxiliada pelo figurino e fotografia. Todas essas equipes contribuem imensamente para construir um universo que meio que homenageia os filmes desse sub-gênero das décadas de 50, 60 e 70, quase sempre rodadas como filmes B e que passavam nas madrugadas da televisão aberta. O tom meio amadorístico da fotografia, e os elementos em cena meio empoeirados e bagunçados, dá um ar nostálgico e que funciona muito melhor do que a maior parte do roteiro.

O elenco, obviamente, participa como parte itinerante da viagem surreal pelo horror da natureza humana. Acostumados em viver seus personagens por muito tempo, logo no começo já estão mais que acostumados com seus papéis, mas são subutilizados na maior parte do tempo. Felizmente, quase todos possuem momentos marcantes, e eu separo particularmente os momentos mais humanos da série, onde entendemos as reais motivações para os atos de bondade de seus poucos personagens virtuosos. Mas é claro que a série está aí para apresentar o pior do ser humano, e esses momentos possuem seu arsenal de choques visuais. Não é um terror de adolescentes, até onde conheço adolescentes descerebrados que fazem jorrar filmes medíocres de pessoas perdendo as cabeças nas salas de cinema (que aterrorizante!).

Com uma conclusão estranhamente apressada (afinal, é um filme de 10 horas e ainda assim ninguém pensou em algo mais coeso?), os dois episódios finais são uma decepção, ironicamente se tornando piores do que os dois últimos episódios da temporada anterior. Isso pelo menos colabora para essa nostalgia que veio crescendo com os dois anteriores a esses, que são os já citados, e que incrementam em muito esse universo. O resto, bom, é Jessica Lange mostrando o que tem de pior. A série não melhora nem piora com essas duas horas finais.

PS: Ah, eu citei que tem uma mulher com duas cabeças? Ou melhor dizendo, duas irmãs com a mesma metade de baixo? Não importa muito, é Sarah Paulson em versão dupla. Espero que suporte as reviravoltas da câmera para disfarçar as limitações técnicas dos efeitos que usaram. Fica difícil saber se é homenagem de filme B ou a produção foi realmente medíocre nesse aspecto. Como curiosidade, note o uso da parte direita da tela para a irmã dominante e a esquerda para a submissa. De resto, ignore essa atuação mais uma vez embaraçada de Paulson.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-11-28 imdb