Amnésia

| Wanderley Caloni

February 2, 2019

Você se lembra do último excelente filme que você viu? Leonard com certeza não. Ele não consegue nem lembrar de bons momentos de sua vida após a esposa ter sido assassinada e sua cabeça lesada. Bom, talvez se conseguisse lembrar ele não teria nenhuma boa lembrança. Exceto, talvez, o dia em que ele matou o assassino de sua esposa. Mas será que isso aconteceu realmente?

Memento, ou Amnésia, como é chamado no Brasil porque as distribuidoras daqui tem demência (e essa é a palavra certa), é um dos primeiros filmes do hoje aclamado diretor Christopher Nolan, e com certeza esse foi um dos filmes que ajudou-o a atingir a lista dos grandes de Hollywood até jovens espinhosos pós-11 de setembro começar a venerá-lo pela trilogia do Batman.

Sua maior virtude está em um roteiro que conta a história de trás pra frente. Explico: cronologicamente o filme começa alguns momentos antes de seu final, mas assim que termina passamos aos momentos anteriores, até que ele se junte com a cena anterior, indo depois para momentos antes desse, e assim por diante. Quando o filme termina estamos na cronologia normal no começo da história, e nossa mente está trabalhando muito semelhante ao do personaem principal, Leonard.

Leonard é uma pessoa com um problema de memória bem específico: ele não consegue mais reter memórias de longo prazo. Ele acorda, lava o rosto, escova seus dentes, veste sua roupa e… não consegue se lembrar se lavou o rosto, escovou seus dentes, etc. Uma pessoa dessas precisa de ajuda.

Mas o personagem interpretado de maneira ligeiramente atrapalhada por Guy Pearce – usando roupas ligeiramente maiores que ele – não está interessado em se internar. Ele precisa vingar sua mulher, que foi estuprada e assassinada no mesmo evento que o tornou um vegetal com lembranças de uma vida que perdeu. Sua última lembrança dessa vida é a mulher morrendo no banheiro, e a partir disso sua única motivação na vida se torna a vingança.

Christopher Nolan sabe que contar uma história dessa forma pode tornar as pessoas confusas e ser bem entediante. Por isso ele conta uma história bem simples, quase banal. No DVD do filme há um extra que te permite tocar o filme na ordem cronológica. Eu fiz isso uma vez. Se trata de algo chato, sem significado, sem tensão.

Mas invertendo a ordem o filme nos permite enxergar o mundo sob a ótica do perturbado Lenny e entender seu drama. Sem isso esse filme seria medíocre e sem qualquer motivo de existir.

Para nos relaxar, Nolan também insere uma sub-história ocorrendo na ordem certa que vai intercalando a ação principal. Ele o faz em preto e branco. Seu plot é sobre um caso que Leonard conheceu antes disso tudo acontecer e cujo homem sofria do mesmo mal. Lenny possui uma tatuagem em sua mão esquerda que diz “lembre-se de Sammy Jenkins” (esse é o nome do cara). E você pode acreditar que ele já contou essa história para mais de uma pessoa mais de uma vez. Às vezes para a mesma pessoa.

O uso de tatuagens e polaroides dá estilo ao personagem, que tenta de maneira quase que patética ordenar sua vida em torno de anotações que para ele faz sentido, mas que nem sempre é a verdade. Questionado sobre isso, ele afirma algo que queremos esquecer: a própria memória humana é suscetível a erros. Testemunhas oculares não possuem um peso muito bom no julgamento da polícia em casos de delitos. Nós reinterpretamos a realidade muitas vezes, relembrando de momentos onde a cor da parede está diferente, a música tocada era outra e as pessoas envolvidas talvez nem existam.

A triste realidade de que somos sacos de polaróides e tatuagens em nosso cérebro caminhando por esse mundo é contrabalanceado com seu objetivo de matar o criminoso responsável. Quando lhe perguntam se isso fará alguma diferença para ele, já que devido à sua condição não conseguirá se lembrar do que fez, Leonard responde: “o mundo não deixa de existir simplesmente porque você fecha os olhos”.

Talvez não, Leonard. Talvez não. Mas você deixa. E sem você, qual o motivo de estar fazendo essas coisas?

Imagens e créditos no IMDB.

Memento. EUA, 2000. Escrito por Christopher Nolan baseado em conto de Jonathan Nolan 'Memenro Mori'. Dirigido por Nolan (o Christopher). Com Guy Pearce como o lesado Leonard/Lenny, Carrie-Anne Moss como a misteriosa Natalie, Joe Pantoliano como o duvidoso Teddy. O elenco de Matrix foi convidado a participar?.