Amor à Primeira Vista

Ulu Grosbard, falecido recentemente (2012), não fez muitos filmes. Este é um “drama romântico” “a la anos 80” com Meryl Streep e Robert de Niro nos papéis principais e que lida com um tema ainda muito tabu, como podemos notar em trabalho semelhante (mas menos ousado) que Streep fará com Jack Nicholson, A Difícil Arte de Amar. Este Amor à Primeira Vista flerta o tempo todo com sua posição a respeito de relacionamentos extra-conjugais, e essa indecisão vista hoje em dia pode tanto significar uma época de transição quanto a transição dos seus próprios personagens, aos poucos aprendendo o valor da liberdade. Como fio narrativo, a indecisão de ambos funciona maravilhosamente bem como gerador de tensão.

Essa tensão pode ser sentida materialmente no valor que o tempo possui para ambos. Pelo menos dois encontros na estação um deles se atrasa e o outro precisa aguardar, lembrando que em ambas as situações o encontro entre eles é crucial para o destino de suas vidas. A rima metafórica aqui é clara: o casamento pode ser um atraso em nossa vida (o que não quer dizer que seja em todas), e por isso nossa próxima companhia merece o benefício da espera, e paciência para a transição que gera nossa transformação como seres humanos.

A questão a ser notada é que, mesmo sem a certeza do que está fazendo, o filme de Grosbard alça voos mais altos através do amadurecimento do sentimento entre os dois. Se no começo parecia um capricho ambos terem se encontrado tantas vezes ao acaso, aos poucos notamos uma certa necessidade em seus personagens de evoluírem, no sentido de se livrarem das amarras convencionais do que dita o relacionamento de um casal perante a sociedade.

Embora o figurino muitas vezes seja risível (como a cena em que Streep escolhe seu melhor vestido), não há como negar a força narrativa da trilha sonora de Dave Grusin (A Primeira Noite de Um Homem), que inicia com um tom burlesco do natal (pelo menos visto hoje) e termina no próximo natal com um poder contemplativo admirável (embora flerte perigosamente perto do mesmo tom aplicado por Ennio Morricone em Cinema Paradiso).

Piegas ou não, o romance aqui existe de uma maneira não-convencional, o que para um filme de 84 merece pelo menos uma revisita.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-01-23 imdb