Amor a Toda Prova

Jul 28, 2016

Imagens

As comédias românticas das últimas duas décadas criaram aos poucos um amontoado de clichês. Agora, imagine um filme que tenta enfiar vários desses clichês de uma só vez. Um filme onde a professora gostosa é Marisa Tomei, onde mulheres em crise da meia-idade assistem Crepúsculo (mesmo sabendo quão ruim isso é), onde um triângulo amoroso é criado entre a babá, a criança e seu pai. Onde até um genro-surpresa pode aparecer para a festa. Se, em torno de tudo isso, ainda houver dúvidas se este é um filme que comemora o lugar-comum, espere começar a chover depois de um desentendimento do casal principal. Nesse momento, até o personagem olha para o céu e exclama: “isso é tão clichê!”.

Tudo começa com o divórcio entre o casal de meia-idade Cal (Steve Carell) e Emily (Julianne Moore). Cal se deixou levar pelo lugar-comum (veja, só) e criou aos poucos uma versão mais chata e mais previsível de si mesmo, deixando Emily disposta a arriscar qualquer aventura boba, como transar com um colega de trabalho. Decidida que o divórcio é a melhor maneira de resolver as coisas, isso desencadeia um turbilhão de acontecimentos em sua família que irá envolver o amor platônico entre seu filho Robbie (Jonah Bobo) e sua babá ligeiramente mais velha Jessica (Analeigh Tipton), que, diga-se de passagem, está apaixonada por Cal. Ao mesmo tempo, o comportamento patético de Cal em ir para o bar e falar sobre seu estado de corno gera compaixão do garanhão do lugar, Jacob (Ryan Gosling), que o ensina truques baratos para catar qualquer mulher disponível e necessitada. Entre as cantadas baratas que Cal começa a utilizar, ele inclui a usada para namorar sua própria mulher. Não muito legal de sua parte, Cal!

Porém, este é um filme repleto de humor negro a respeito de relacionamentos e situações que costumam ser usadas para inspirar a pena e a torcida dos espectadores, só que dessa vez a resolução dos conflitos nunca está em torno de algo mágico, como um encontro ou situação-chave, mas apenas em encarar os fatos e partir para a próxima. Casais de meia-idade geralmente aceitam isso, e o espectador mais jovem talvez se sinta traído. Não se sinta assim. A vida é injusta, irregular e cheia de obstáculos bizarros. Quando você é um pouco mais velho simplesmente se acostuma a dar a volta.

Enquanto isso, várias piadas sobre quarentões e piadas sobre jovens garanhões é usada para subverter a lógica dos enlatados de Hollywood (“isso é muito Photoshop!”). O único elemento não-clichê, mas desejoso de ser – a inocência, o idealismo, o pragmatismo e a maturidade de Robbie, nessa ordem – constitui um pilar moral da história, que contém pessoas mais velhas fazendo bizarrices como se estivessem no ginásio.

O que se torna imensamente divertido em Amor a Toda Prova é basicamente rir de tudo isso. Nada é levado a sério, e já sabemos que tudo vai ficar bem. Dessa forma, não se importe com o final, e apenas curta o trajeto. Não é assim que a vida amorosa merece ser vivida, afinal de contas?

Wanderley Caloni, 2016-07-28. Amor a Toda Prova. Crazy, Stupid, Love. (USA, 2011). Dirigido por Glenn Ficarra, John Requa. Escrito por Dan Fogelman. Com Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Analeigh Tipton, Jonah Bobo, Joey King, Marisa Tomei, Beth Littleford. IMDB.