Amor

Michael Haneke explora através de uma doença a degradação de Anne (Emmanuelle Riva), uma professora de música aposentada já nos seus 80, e o acompanhamento pelo seu atencioso — mas humano — marido, Georges (Jean-Louis Trintignant). A diferença aqui é que isso é feito de maneira a não obstruir a dura e cruel realidade (dita de forma crua, me perdoem os leitores): não há nada de bonito na doença e é um saco cuidar de gente doente, especialmente quando estamos diante de uma vida inteira de experiências prazerosas sendo jogada fora da memória, em uma fase da vida onde há ainda tanta coisa por compartilhar.

Mesmo que não o diga verbalmente, a rotina do casal logo após a cirurgia mal sucedida muda completamente para se tornar insuportável para ambos, pois o “casal” paulatinamente deixa de existir. Conforma Anne aos poucos perde seu passado e seu futuro, Haneke não nos poupa qualquer constrangimento da pessoa e dos cuidados do seu marido, transformando todo o processo em um filme longo e arrastado. Quando chegamos na cena mais impactante do longa, ela com certeza só dividirá opiniões entre quem sentiu a rotina dos dois até agora e os que não viram (e, claro, os religiosos não-pensantes, defensores da tortura por um bem extra-terreno inacessível).

Amor, pelo seu título, consegue inverter a expectativa dos ingênuos espectadores, mas se torna prova de um amor imaterial, que transcende a própria forma e as convenções da época. Haneke nos faz pensar nisso o tempo todo, o que em filme já é um ótimo sinal.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2013-02-13. Amor. Amour (France, 2012). Dirigido por Michael Haneke. Escrito por Michael Haneke. Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell, Ramón Agirre, Rita Blanco, Carole Franck, Dinara Drukarova. imdb