Amores Imaginários

2011/11/20

Primeiro trabalho de Xavier Dolan na direção/roteiro/atuação depois de chamar a atenção com Eu Matei a Minha Mãe, Amores Imaginários é sobre exatamente o que o título sugere: aquele sentimento de idolatria por uma pessoa que nunca é correspondido à altura, porque no fundo esse sentimento é puramente imaginário. É como uma paixão, em qualquer grau e gênero.

Definição essa levada a sério no filme, que escolhe estilizar todas as cenas em que os dois apaixonados, Marie (Chokri) e Nicolas (Scheider), se preparam para se encontrar com Francis (Dolan), o alvo romântico dos dois. A transformação deles para o “ritual” de reencontro é solene (pelo menos para os dois), onde cada detalhe é mostrado em câmera lenta com uma trilha sonora marcante (uma versão francesa de Bang-Bang, de Kill Bill) e repetida inúmeras vezes (a la Love Story), pois representa um momento mágico para os apaixonados e onde toda a dedicação é pouca.

Todos esses exageros são “justificados” pelas entrevistas que entrecortam a história fictícia, de pessoas que passaram por esse processo de deixar a vida orbitando em volta de uma pessoa. As entrevistas usam zoom toda hora, aproximando a afastando os entrevistados em função dupla na narrativa, tanto para 1) representar esse conceito de estar ao mesmo tempo perto e longe da pessoa amada quanto para 2) dar ansiedade, pois encontra sua contraparte nas cenas lentas (e não são poucas).

O exagero e os detalhes nas reações dos dois ante cada movimento do amado é capturado através de planos-detalhe, como as mãos inquietas, mostradas diversas vezes. Essa necessidade de se encaixar na vida do amado e a decepção quando isso não acontece, aliás, é exacerbada pela fotografia nítida, mesmo em ambientes escuros, que consegue transmitir através de suas cores, por exemplo, quando Marie encontra Francis em um bar com um grupo de amigos e ele todos os seus amigos estão de azul, enquanto ela senta em um canto da mesa vestindo um nada discreto vermelho.

A necessidade física de se encaixar é ponto forte no humor do longa, pois investe nas transformações físicas que ambos os apaixonados sofrem para agradar seu amado da forma com que enxergam suas aspirações. Dessa forma, Nicolas muda seu corte para uma réplica de James Dean e Marie vira Andrey Repburn em Bonequinha de Luxo. Enquanto isso, a vida de Francis e seus detalhes são explicitados na tela, enquanto a vida dos dois passa despercebida, de forma que não sabemos o que eles fazem e o que gostam (exceto Francis). A própria câmera evita focar muito os dois.

O que nos remete a um pequeno problema de postura no filme, pois, ainda que funcional, os movimentos de câmera são mais invasivos do que deveriam, e acabam repassando para a tela, pela própria exibição de ângulos inusitados ou de movimentos involuntários na câmera enquanto os personagens permanecem em quadro, uma certa indulgência do cineasta em uma possível ilusão de auto-importância, delatado, aliás, pela sua própria escolha de personagem (ele é o diretor/roteirista e ainda faz o papel de idolatrado).

Exagerado no visual, é econômico nas palavras, não sendo necessários muitos diálogos, pois a história se conta a si mesma, ajudada, é claro, pelas entrevistas que fortalecem o sentimento interno dos dois e ao mesmo tempo tentam tornar a história dos dois universal.

Consegue. E, ainda que traga uma certa ansiedade o fato de nunca caminharmos para lugar algum na história, é exatamente esse o sentimento que o filme tenta transmitir. Então consegue em dobro.

★★★★☆ Les amours imaginaires. Canada, 2010. Direction: Xavier Dolan. Script: Xavier Dolan. Cast: Monia Chokri. Niels Schneider. Xavier Dolan. Anne Dorval. Anne-Élisabeth Bossé. Olivier Morin. Magalie Lépine Blondeau. Éric Bruneau. Gabriel Lessard. Edition: Xavier Dolan. Cinematography: Stéphanie Anne Weber Biron. Runtime: 101. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Drama. Category: movies

Share on: Facebook | Twitter | Google