Angel Beats!

“Não fazer sentido é com a gente!”, repete a heroína Ryuko Matoi nos capítulos finais do anime “Kill La Kill”, uma série ousada e inteligente, mas que acaba em seus capítulos finais descanbando para o clichê de lutas sem fim. Mesmo assim… pobre Ryuko; mal sabia ela que seria ultrapassada de longe por “Angel Beats!”, um trabalho digno de colegiais sem ter o que fazer na hora do recreio, e que une diferentes conceitos em prol da diversão interna desses alunos, pois qualquer tentativa de entender a lógica interna desse universo cairá por terra.

O enredo deste animê contém elementos que eu colocaria se fosse um estudante do ensino médio (ou até do fundamental) que quisesse criar uma distopia além-vida, onde há batalhas contra anjos, a revolta contra Deus e uma mensagem cafona sobre o poder do amor. Os personagens desta história parecem claramente inspirados nos próprios criadores. Me surpreende muito, então, que nos créditos do roteiro estejam apenas duas pessoas citadas, enquanto existem nada menos que sete diretores responsáveis pela sequência de 13 episódios da primeira (única?) temporada.

A história é simples: quando você morre e sua alma não é bem-resolvida, e você tem idade ainda para cursar o ensino médio, você irá cair em uma escola que ensina eternamente as mesmas lições, rodeado de uma espécie de programas, ou alunos sem alma, que continuam a repetir a rotina escolar para todo o sempre. Em um dado momento, quando você – se você tiver alma, é claro – se der conta dessa armadilha temporal, ou resolver seus conflitos internos, irá parar de existir, ou irá para algum lugar que ninguém tem ideia de onde é. Para evitar isso, um grupo de estudantes é formado para guerrear contra os anjos, criaturas que interagem com as almas deste mundo para fazê-los enxergar quem realmente são, e com isso fazê-los subir para um plano superior ou desaparecer.

É difícil identificar quem é quem nesse grupo de estudantes, já que os estereótipos são tão frágeis que cada um deles pode ser resumido por uma característica apenas. Dessa forma, a líder é rabugenta, uma outra menina é calada (e ela falar algo é um evento), outro menino fica dançando e soltando frases em inglês, um outro acha que é Deus, e o garoto principal, ou o que chegou por último da turma, simplesmente não se lembra quem era quando vivo. Felizmente o pessoal de arte decidiu trazê-los com cores diferentes de cabelo, o que permite que você pelo menos durante as conversas do grupo saiba quem disse alguma coisa por último.

Além de possuir personagens que se misturam entre si, a série possui sérios problemas de lógica interna, o que a torna sonolenta mesmo nas batalhas mais ardentes. Imagine que, por exemplo, os estudantes não podem morrer neste mundo, pois, de acordo com eles, já estão mortos, o que faz com que, se alguém morrer em batalha, em breve irá renascer de uma forma ou outra. Mas isso não impede que, cada um deles, em todos os momentos que isso acontece, fiquem extremamente abalados, surpresos, e lamentem a perda de um companheiro. Aparentemente o fato de ter uma alma além-vida não significa que você irá manter o seu cérebro intacto.

Da mesma forma, os diferentes tipos de reviravoltas na trama servem apenas para deixar todo esse universo mais confuso. Em determinado momento, o destino do anjo muda completamente de figura em apenas um comentário dito ocasionalmente. Além disso, de repente surge um conceito tecnológico que joga todos os conceitos metafísicos na lata do lixo. E o que dizer do uso das guildas, que nunca tiveram sua função definida através dos diálogos realmente vista? E quem está por trás da criação de tantas arapucas?

Uma vez (ou algumas vezes) um amigo meu comentou que vários animês são feitos apenas como forma de divulgação de mangás (os quadrinhos japoneses). Esse talvez seja o caso de Angel Beats!, já que o conteúdo da história está atrelado às personalidades de seus personagens, que nunca são reveladas exceto por um tipo de interação que nos leva a crer que eles já se conhecem de longa data (ainda que alguns membros sequer se lembrem dos nomes de outros). Além disso, há uma preocupação infundada dos criadores em sempre alertar-nos dos locais onde os personagens estão. E não são localizações que se resumem em “refeitório”, mas “saída B do portão 9”, ou “segunda escadaria do andar 3”, como se isso realmente importasse para a história.

Porém, não me leve a mal: é possível gostar desse animê. Ele é ruim, mas da mesma forma com que comerciais são interessantes por chamar a atenção em trinta segundos, alguns momentos de Angel Beats! se saem bem isoladamente, embora não como uma história. Existe uma banda de meninas que toca no salão da escola e todos os alunos vão lá dançar; a performance delas é trazida com vida pelos desenhistas, e algumas músicas são baladinhas gostosas de serem ouvidas. Há um momento que surge o grande mistério de por que tal pessoa gosta de uma comida apimentada que ninguém costuma comer; a interação com a comida vira o tema nesse episódio. O último desejo de uma menina era se casar, mas quando ela era viva não podia sair da cama; mais um bom momento para que espectadores sejam levados a se emocionar.

Se isolarmos estes pequenos resquícios de história, Angel Beats! sobrevive como uma sequência caótica de comerciais que revelam uma sensação ou outra passageira. Porém, não é possível dizer que estas histórias conseguem se conectar em uma narrativa coesa, já que é comum o destino de um personagem ser abordado para logo depois ele ser esquecido, e logo voltamos para ele novamente em uma outra situação. Se “não fazer sentido” é a grande força que move o final de Kill La Kill, “tentar fazer sentido” parece ser a única esperança por trás de Angel Beats!; infelimente, o episódio irá acabar antes disto se concretizar. Pausa para uma próxima temporada?

★☆☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-11-04 imdb