Angry Birds: O Filme

Aug 21, 2016

Imagens

Filmes baseados em jogos não costumam gerar resultados positivos. Um jogo para celulares, então, teria probabilidades maiores ainda de fracassar como Cinema. Porém, eis aqui um filme que aproveita cada oportunidade de sua história para evocar o universo simples de Angry Birds. Ele constrói personagens e seu mundinho baseados nos elementos do jogo, mas está longe de ser apenas isso. É um filme sobre como os sentimentos ditos como negativos – como a raiva – podem ser positivos em alguns momentos da vida.

Seu herói, Red (um pássaro vermelho dublado por Jason Sudeikis), é um isolado de sua comunidade, que não consegue conviver com aqueles passarinhos, mas se sente só, tanto por não ter pai nem mãe, mas também por ter sido feito de piada durante toda a infância por suas gigantescas sobrancelhas e por acreditar no Mega-Águia, o símbolo de herói da ilha dos pássaros. Apesar dessa história parecer clichê, ela é desenvolvida com uma sensibilidade adulta, já que Red faz comentários irônicos a todo momento, usando de cinismo para esconder das pessoas o que sente realmente.

Depois de entrar em mais um conflito na ilha, é obrigado a participar de uma terapia de gerenciamento da raiva com outros pássaros problemáticos, como um amarelo que é super-rápido e se aproveita disso para descontar as multas que leva por excesso de velocidade, um preto que quando é surpreendido ou perde o controle (não está muito claro a regra) ele literalmente explode, e um outro vermelho, mas gigante e mal encarado, e cujo histórico a instrutora hippie-zen happy-go-lucky sequer menciona o que ele fez de errado.

A história é desenvolvida em torno dos acontecimentos do jogo Andry Birds, mas se eu detalhar melhor estarei dando spoiler do filme, e não do jogo, pois praticamente todo o roteiro de Jon Vitti é baseado na introdução do jogo: porcos atracam na ilha dos pássaros e desejam roubar seus ovos para comer. Eles próprios brincam com spoilers nesse momento.

O roteiro subverte a lógica do filme-clichê do herói que busca salvação entre os deuses (no caso, a águia), além de conseguir tornar toda a narrativa divertida e imaginativa, graças à inspirada direção de arte, que faz todas as piadas possíveis e imagináveis sobre porcos, ovos e as esquisitices do trio principal. É um filme que não se priva em, no momento mais agitado do longa, inserir um cartaz de uma peça estrelada por Kevin “Bacon”. Claro que a peça é Hamlet (“Ham”, em inglês, é presunto), e mesmo que você corra o risco de não ver no meio da bagunça, esse é o nível de detalhes do mundo criado para o filme.

Além disso, a despeito da qualidade cada vez crescente das animações dos grandes estúdios, uma animação simples como essa ainda consegue surpreender ao dar vida de uma forma humana às expressões de pequenos pássaros cheios de penas. Se a grande estrela nesse caso é o pássaro amarelo, até o sorriso discreto do pássaro gigante vermelho (cujos grunhidos são dublados por Sean Penn) soa orgânico e significativo. E o que dizer de uma produção que se lembra de simular o olho roxo de um porco verde com tamanha exatidão, mesmo que, mais uma vez, quase ninguém note?

Angry Birds é uma grata surpresa nas animações do ano. Há piadas sem graça e cenas bobinhas, mas em seu núcleo, a inovação na arte de contar história surge de um jogo com um fiapo de argumento. Um mundo divertido habitado por criaturas complexas surge magicamente dentro de duas pequenas ilhas.

Wanderley Caloni, 2016-08-21. Angry Birds: O Filme. Angry Birds (USA, 2016). Dirigido por Clay Kaytis, Fergal Reilly. Escrito por John Cohen, Mikael Hed, Mikko Pöllä, Jon Vitti. Com Jason Sudeikis, Josh Gad, Danny McBride, Maya Rudolph, Bill Hader, Peter Dinklage, Sean Penn, Keegan-Michael Key, Kate McKinnon. IMDB.