Animais Fantásticos e Onde Habitam

2016/12/15

Quando a série Harry Potter terminou nos cinemas veio a sensação de saudade com um misto de “saga intocável”, no sentido de qualquer tentativa de “George Lucarizar” a franquia estaria fadada ao fracasso. A não ser que fosse apenas utilizado o universo onde se passam os filmes, mas não os mesmos personagens, ou as mesmas situações (mago do mal, cada filme um ano na escola). Pois bem. A partir de Animais Fantásticos, a escritora J. K. Rowling pode ganhar o título de “escritora fodona” de verdade. Ela não recicla ideias que a tornaram um sucesso (e milionária). Ela não usa personagens que os fãs abraçaram como muletas afetivas. Ela cria uma história do zero, fugindo completamente do mundo HP e apresentando novas criaturas e novos conceitos, enriquecendo e expandindo o universo em vez de sugando-o. Aprendeu como se faz, George Lucas/J.J. Abrams?

Apresentando Newt, um garoto curioso que é aficionado pelos animais exóticos que cria, e que chega em uma Nova Iorque sitiada pelo medo e insegurança, além de um crescente sentimento de ódio aos bruxos entre os mais radicais. No entanto, como não é só de radicalismo que vive o mundo, um grande editor da imprensa se aproveita desse clima de extremos para eleger seu filho, em uma perfeita alegoria da situação política do mundo atual.

Porém, esse panorama nunca conhecemos através de descrições chatas e expositivas, algo comum para cineastas preguiçosos. Os detalhes vão sendo montados um a um conforme Newt conhece o nova-iorquino Kowalski durante uma confusão, e na tentativa de resolver o problema de ter animais mágicos espalhados pela cidade vamos aos poucos aprendendo como as coisas funcionam, ou melhor dizendo, como elas estão nesse momento, uma Nova Iorque dos anos 20 particularmente romantizada.

No decorrer dessa pequena aventura vamos também acompanhando a amizade que se constrói entre Newt, Kowalski, e Tina e Mary Lou, ambas irmãs, mas completamente diferentes. Tina era fiscal da magia até ser destituída do cargo por mexer com a pessoa errada (quando descobrimos isso vemos como tudo está interligado; um prazer podre que só a política faz por você). Mary Lou é a mais caseira e mais mulher no sentido tradicional da palavra. Ela até lê mentes, e cozinha deliciosamente, algo que até Kowalski, alguém que tenta abrir uma padaria baseado nas excelentes receitas de sua vovó (que historinha bonitinha) é obrigado a reconhecer.

O filme trabalha muito bem também alternando entre as diferentes histórias, nos mesmos moldes com que os filmes de Harry Potter faziam, deixando parte do mistério ir sendo revelado aos poucos. No entanto, a impressão geral é de que, apesar de estarmos no mesmo universo, ele está sendo a todo momento redescoberto. Seja uma criatura mágica nova (com efeitos visuais muito mais impressionantes que dos filmes anteriores), ou detalhes de como a magia é empregada (e é curioso como seu uso na América parece muito mais funcional do que na escola de Hogwarts). A música da série é reciclada em cima de uma trilha cômica e de aventura que James Newton Howard habilmente desenvolve em torno da música-tema, mas a habituando em um nível mais lúdico.

Afinal de contas, embora brinque com coisa séria, esta é fundamentalmente uma comédia, pautada em bichinhos fofinhos, personagens fofinhos e a criatividade aparentemente sem limites de Rowling, que depois de sete livros ainda parece estar a todo vapor, estendendo seu universo literário e agora cinematográfico (Rowling também assina o roteiro, sozinha).

E como é bom ver de volta o diretor David Yates, o responsável por todos os filmes adultos de Harry Potter. Yates possui uma forma extremamente eficaz de usar a tela, acumulando personagens e elementos em cena de maneira que não precise fazer mudanças muito rápidas de plano, e até o 3D ele utiliza pontualmente, quando por exemplo várias paredes são furadas e vemos a profundidade de tela atravessando-as, além, é claro, da absurdamente linda sequência em que vemos o jovem Newt mostrando a Howard todos os ambientes onde seus bichinhos estão sendo cuidados.

A interpretação de Eddie Redmayne como Newt, aliás, é menos do que a ótima escolha de elenco. Redmayne já é uma carinha bonita e fofa antes mesmo de entrar em seu personagem. Já vimos isso em A Teoria de Tudo. Porém, a grande revelação é mesmo Dan Fogler como o simpático e bonachão Howard, um sonhador que, alívio cômico, quase não tem falas, mas quase rouba todas as cenas com suas expressões e sua risada. Ele seria o equivalente à tresloucada Kate McKinnon no último Caça-Fantasmas: sob o efeito de drogas e curtindo muito tudo isso.

E do lado negro da força, ainda temos Colin Farrell que, habituado a filmes de ação e comédias com humor negro, aqui consegue usar sua expressão afetada de maneira impetuosa, construindo um vilão que apenas empalidece na caricatura quando o vemos junto de Ezra Miller como o problemático Credence, muito provavelmente a criação mais inspirada de Miller.

A coisa mais surpreendente em “Animais Fantásticos”, no entanto, é constatar que é um filme que foge de todas as fórmulas (ou deveria dizer “a fórmula”?) de Hollywood no momento, que basicamente se resume em reciclar ideias e personagens em remakes e continuações cada vez mais automáticas (Marvel) e não finalizar uma história de maneira satisfatória, sempre enganchando para a “próxima aventura” (Marvel). Por outro lado, não é um filme que arrisca muito com personagens já amados pelos fãs. Mas quando vemos como estamos sufocados de mesmice para todos os lados do cinema comercial, toda essa ode à liberdade, mesmo que às custas de uma franquia, só merece elogios.

★★★★☆ Título original: Fantastic Beasts and Where to Find Them. País de origem: UK. Ano 2016. Direção: David Yates. Roteiro: J.K. Rowling. Elenco: Eddie Redmayne (Newt). Sam Redford (Customs Official). Scott Goldman (Customs Official). Tim Bentinck (Witness). Tom Clarke Hill (Photographer 2). Tristan Tait (Reporter). Colin Farrell (Graves). Matthew Sim (Photographer 1). Katherine Waterston (Tina). Edição: Mark Day. Fotografia: Philippe Rousselot. Trilha Sonora: James Newton Howard. Duração: 133. Razão de aspecto: 1.85 : 1. Gênero: Adventure. Tags: cinema oscar2017

Share on: Facebook | Twitter | Google