Anomalisa

Jul 31, 2016

Imagens

Este é uma animação que não se anima. O movimento lento de seus personagens e o comportamento robótico de cada situação – além do próprio maxilar das pessoas denotar isso – leva a crer que há algo de errado naquele mundo, mas ao mesmo tempo, por se parecer tanto com o nosso mundo, se torna uma comparação estranhamente familiar.

Uma crítica tão complexa quanto o comportamento humano não poderia ganhar melhores traços do que em uma animação e não poderia se beneficiar mais do que nas mãos de Charlie Kaufman (Quero Ser John Malkovich, Adaptação), que divide a direção com o estreante no cinema Duke Johnson (mas já habituado a animações, como a série Mary Shelley’s Frankenhole e episódios de Community) e o roteiro com Francis Fregoli (que é Charlie Kaufman em seu pseudônimo; as brincadeiras de Adaptação ainda não o largaram).

A história gira em torno de uma viagem de uma noite a negócios de Michael Stone (David Thewlis), um celebrado autor de livros e palestras de auto-ajuda onde auxilia comerciantes de serviços e produtos no tratamento ao cliente. O filme está de cabeça pra baixo, pois aprendemos as lições de Stone através do tratamento que este próprio recebe de outras pessoas, desde o motorista de táxi que o leva do aeroporto ao hotel ao gerente do hotel. Frases genéricas que tentam melhorar o humor de Stone são ditas por todos com quem ele interage, além de recomendações igualmente genéricas, como ele visitar o zoológico da cidade e provar o chili local. Porém, desesperado por atenção real, o sujeito chega a ligar para uma ex-amante de décadas atrás e sai batendo nas portas do seu andar à procura de uma mulher com quem compartilhar algum momento único e não-automatizado.

Dublado por três pessoas, Stone é David Thewlis, a garota única que ele encontra, Lisa, é Jennifer Jason Leigh, e todos os outros personagens – mulheres, homens, criança – são dublados por Tom Noonan. Não é difícil enxergar onde o filme quer chegar depois que o terminamos, mas é um grande desafio para o espectador acompanhar com paciência tudo que está vendo e chegar às próprias conclusões daquele microcosmos fascinante a respeito do que nos torna diferentes de meros bonecos repetindo frases convenientes durante toda nossa vida.

Além disso, o filme pode muito bem ser visto como uma crítica ao nosso niilismo/egocentrismo em enxergar todo o resto das pessoas apenas como seres que devem realizar os nossos desejos. O uso das palavras, aliás, é particularmente inspirado. Ao procurar uma loja de brinquedos para dar algo ao filho em seu retorno, Stone entra em um sex shop (com o nome “Toys” na frente). Sua incapacidade de enxergar as outras pessoas como seres dignos de serem vistos como únicos o também impede de ter qualquer empatia por sua família, chegando ao absurdo da situação.

Só Charlie Kaufman consegue tornar uma história tão depressiva fascinante pela expressividade contida dentro dela. Mestre das recursividades, o filme pode ser interpretado de diferentes maneiras, mas sempre dentro da recursividade maluca de suas histórias. Sempre há algo de estranho nas histórias de Kaufman, e isso tem sido ótimo.

Wanderley Caloni, 2016-07-31. Anomalisa. Anomalisa (USA, 2015). Dirigido por Duke Johnson, Charlie Kaufman. Escrito por Charlie Kaufman, Charlie Kaufman. Com David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan. IMDB.