Aquarius

2017/01/13

Sônia Braga não está protagonizando um filme. Aquarius é um filme que protagoniza Sônia Braga. Ela é todo o filme. E quem garante isso é o diretor Kleber Mendonça Filho, mais uma vez, depois de O Som Ao Redor, fascinado (e enganado) a respeito da classe média “esclarecida” e das questões de propriedade privada. A direção de Kleber interfere apenas para dar passagem a Braga, que samba a dança do crioulo doido e entrega uma performance corporal e verbal que arrebata todo o filme, o leva para si.

Tudo isso em uma história simples. Vemos o prólogo rapidamente, que se passa em saudosos anos 80, em uma direção de arte impecável e afetivamente engajada em nos fazer reter aquelas cenas em nossa mente durante todas as quase duas horas e meia de filme. A questão das gerações e dos valores é representada em um aniversário de 70 anos da tia querida da família, enquanto uma jovem Clara (Braga) acaba de se recuperar de um câncer de mama. Seu marido faz um discurso sobre o desafio que passaram juntos. Agora, décadas depois, ele já morreu, e Clara permanece sozinha com sua empregada morando no mesmo condomínio. Só falta ela, que resiste bravamente, para a construtora e seus impiedosos engenheiros tomarem para si o terreno e construir em cima das memórias e dos sonhos de Clara mais um empreendimento capitalista.

É preciso abrir um parênteses para talvez a elipse e edição mais enxuta e poderosa de 2016. Quando passamos de anos 80 a anos atuais, a música que sai da vitrola de Clara permanece durante o bailinho em família. Quem sai é a família, e no lugar surge uma TV de tela plana. Mas a vitrola… esta permanece no mesmo lugar. Outro móvel que permanece é o que lembra a tia querida da família dos momentos de loucura com seu amante. Mendonça Filho continua dando uma importância aos totens da vida moderna, simbolizando através dele e a passagem das gerações algo que permanece no mesmo lugar. Clara também é um desses totens.

Mas chamar a personagem de Sônia Braga é diminuí-la, pois não apenas a resistência em abrir mão de sua propriedade a define, mas também o seu jeito educado e polido, ainda que firme, além de um quê de sensual, ainda que sexagenária. As pausas que Clara toma no momento em que fala, unido aos seus movimentos de rosto, constroem uma personalidade fascinante, de alguém que já passou por muito na vida, que parece estar perdendo as forças, mas que continua lúcida, desperta, viva. Todos ao seu redor parecem inertes (exceto os engenheiros malvadões, mas esses só aparecem para assustar as criancinhas).

O roteiro de Kleber Mendonça Filho vai além da história principal, resgatando através de uma festa animada no andar de cima os prazeres mais básicos de Clara. Há uma mistura entre homenagem aos papéis anteriores de Sônia Braga e sua própria personagem, que personifica, na visão de Mendonça, uma espécie de símbolo negro, talvez como uma resistência. Ideologicamente o filme carece de mais explicações, mas isso não quer dizer que não seja interessantíssimo de acompanhar. Mendonça eleva ao cubo seu próprio fascínio pela classe média, e revela que em sua visão ela já fez as pazes com quem “explora”, mesmo que estes de vez em quando roubem algumas joias como “compensação”.

O resultado dessa miscelânea de conceitos é um filme envolvente, que explora (esse, sim, explora) muito bem suas premissas, divagando com precisão através das ideias de seu criador, gerando sentimentos mistos no espectador, que obviamente já toma seu lado na briga, enfraquecendo um pouco o debate de ideias, já que, diferente de O Som Ao Redor, aqui está tudo muito claro, ainda que existam alguns elementos que sugiram o contrário (como a óbvia agressão que Clara segue sofrendo com quebras de regras básicas de convívio entre “vizinhos”, algo que na vida real é inadmissível).

E é um filme que já faz parte de uma coletânea cinematográfica brasileira, que se aproveita dos cenário atual para resgatar fantasmas de uma ideologia morta, mas que já esteve muito viva na voz dos “revolucionários”, em discos de vinil. Infelizmente, esses discos duram mais tempo do que imaginávamos a princípio.

★★★★★ Título original: Aquarius. País de origem: Brazil. Ano 2016. Direção: Kleber Mendonça Filho. Roteiro: Kleber Mendonça Filho. Elenco: Sonia Braga (Clara). Maeve Jinkings (Ana Paula). Irandhir Santos (Roberval). Humberto Carrão (Diego). Zoraide Coleto (Ladjane). Fernando Teixeira (Geraldo Bonfim). Buda Lira (Antonio). Paula De Renor (Fátima). Barbara Colen (Clara em 1980). Edição: Eduardo Serrano. Fotografia: Pedro Sotero. Fabricio Tadeu. Duração: 142. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Drama. Tags: torrent

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