Argentina vs França e o Fim da Geração dos Autistas

Jul 1, 2018

A tecnologia e o profissionalismo chegaram na copa em um nível nunca antes visto. Se compararmos com o que o atacante que fez o primeiro gol na primeira copa, o francês Lucien Laurent, notamos o abismo entre o ontem e o hoje do Planeta Futebol:

Estávamos jogando contra o México e estava nevando, já que era inverno no hemisfério sul. Um dos meus companheiros de equipe recebeu a bola e eu segui seu caminho com cuidado, finalizando com meu pé direito. Todos ficaram satisfeitos, mas não houve uma grande comemoração - ninguém percebeu que estavam fazendo história. Um aperto de mão rápido e nós voltamos ao jogo. E nenhum bônus também, todos nós éramos amadores naquela época, até o fim.

Mas houve uma transição. Ela foi lenta, passaram grandes gerações pelo caminho (Brasil que o diga), e grandes paixões acabaram levantando a taça ou chegando muito próxima dela. Não importa. O futebol ganha pelo que se passa no gramado, e as seleções apenas acumulam história em seus títulos e sub-títulos.

Hoje é o dia que termina esta geração de autistas no futebol. Messi e Cristiano Ronaldo, dentre outros, pertencem a uma geração super auto-centrada, mas nada criativa dentro de um esporte coletivo. Estas pessoas não parecem viver, mas tecnicamente são tão impecáveis que embalam os torcedores não-autistas, com a resposta emocional de robôs empenhados em trazer o máximo de… do quê, mesmo?

A Argentina é um time de sofredores, e Diego Maradona, gordo e acabado, é o símbolo do segundo país do futebol do hemisfério. Quando a câmera nos mostra dieguito é uma cena deplorável. Quando a câmera nos mostra o melhor atacante atual do seu país, Messi, a cena é daquele jogo de vídeo-game, Fifa 2018. O jogador de carne-e-osso nunca esteve tão próximo de sua versão robotizada.

E aqui a máquina perde o equilíbro. Tanto Argentina quanto Portugal estruturaram suas seleções baseadas no fato que o gênio marcador de seus jogadores-robôs resolveria qualquer impasse. E deram um salto para a mediocridade. Mais ou menos como está acontecendo com as nações, a economia, as finanças, entregando decisões sobre a pensão de viúvas nas mãos de psicopatas capitalistas especulando bilhões de um lado a outro do globo. Se tudo der errado, basta eles formatarem. Não o computador, o cérebro.

O futebol da França e do Uruguai, por outro lado, não possuem exatamente um cérebro para coordenar a equipe. Eles são um coração que bombeia garra de ponta a ponta do campo. E a pressão parece que sempre acaba mais forte no lado do ataque, bombeando e bombardeando a soma de seus talentos rede adentro. Até a França, européia, pode se vangloriar de um futebol jovem e romântico. Talvez seja a Marselhesa tocada no início de cada jogo. Vai saber… O que sabemos é que a seleção da França é jovem, é mista, e não parece disposta a diminuir sua muralha. Bom para o futebol.

Já outro país do continente, Portugal, é outra história. Bom para os Uruguaios, que festejam junto da França. Dois países muito diferentes, de mundos distintos, unidos pelo bem do coletivo. E conseguem. Mais do que a Alemanha de quatro anos atrás. O jogo segue, mas a paixão pelo futebol deu uma respirada de alívio em quatro horas inesquecíveis deste sábado de férias. Já o autismo…

Wanderley Caloni, 2018-07-01. Copa do Mundo Fifa 2018 na Rússia, Oitavas de Final: França vs Argentina e Uruguai vs Portugal.