Argo

Nov 18, 2012

Imagens

O início de Argo, terceiro trabalho de Ben Affleck atrás das câmeras, já mostra a que veio. Com uma sequência que envolve a invasão do consulado americano pela população Iraniana — revoltada pelo exílio de seu ex-ditador sanguinário pelos EUA — a tensão se estabelece como uma constante durante toda a projeção, como um ruído a ensurdecer pela constância. A fotografia documental do filme, realista pelas cores fracas e grãos maiores, imediata pelos movimentos incessantes de câmera, consegue se fundir com imagens reais do acontecimento que de fato ocorreu no início da década de 80. A câmera, ao aplicar zooms nas pessoas envolvidas, aproxima o espectador do drama pessoal que se estabelece com esse evento quando descobrimos que seis refugiados poderão ser executados a qualquer momento se forem descobertos.

A introdução que precede a história é rápida, mas faz questão de apresentar todos os fatos políticos que precederam ao ataque. Enquanto ambos os governos negociem durante meses o destino dos presos no consulado a retirada dos refugiados é uma prioridade que, embora oculta, se torna preocupação constante por conta da opinião popular. Há inúmeros ângulos pelos quais se pode analisar a questão — econômico, político, social — e as lentes de Affleck não deixam escapar nenhum deles.

Ao passar-se meses sem ideias com o mínimo de chance de dar certo, o “surgimento” de Tony Mendez (Ben Affleck), um agente da CIA que mantém uma relação distante com seu filho e esposa e que parece ser o menos indicado a pensar a respeito de salvar vidas, é o responsável direto por planejar a produção de um filme de mentira para fazer com que os refugiados saiam do país como inofensivos canadenses. Parece ser a única coisa que conseguiu ser aceito pelo governo, ainda que com receios de que isso gere o efeito contrário, e não apenas pessoas morram, mas a humilhação de um plano patético abra ainda mais a ferida americana nesse incidente diplomático.

O que ocorre em seguida é resultado de um tratamento realista, mas fictício o suficiente para ter o ar cinematográfico necessário para que haja ação mesmo quando estão todos esperando as próximas ordens. Exausto, o grupo que pretende ser resgatado aceitaria qualquer coisa que salve suas vidas, menos ser entregue a um plano vindo de Hollywood (que as câmeras de Affleck sabiamente enfocam através dos seus letreiros caídos, resultado da deterioração e descaso de décadas). Como é possível que alguém saia vivo de um disparate desses?

De qualquer forma, o que nos segura nas cadeiras ainda é a certeza de que essas pessoas passaram muito próximo do que é retratado na tela, e que por isso mesmo sua história é digna de ser mostrada com grandiosidade e até com um certo tom teatral. Não que isso seja ruim. Tanto que um dos momentos mais sublimes do longa envolvendo story boards não é apenas realista, mas visceral e surreal ao mesmo tempo. Da mesma forma, um enquadramento que focalize Tony Mendes e carros de polícia mereceria entrar para a história do Cinema como uma construção de fuga tão bem planejada como foi a da vida real.

Nesse momento, a arte se torna maior que a vida. E o que é mais irônico: graças à vida.

Wanderley Caloni, 2012-11-18. Argo. Argo (USA, 2012). Dirigido por Ben Affleck. Escrito por Chris Terrio, Tony Mendez, Joshuah Bearman. Com Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Scoot McNairy, Rory Cochrane. IMDB.