Argo

O início de Argo, terceiro trabalho de Ben Affleck atrás das câmeras, já mostra a que veio. Com uma sequência que envolve a invasão do consulado americano pela população Iraniana — revoltada pelo exílio de seu ex-ditador sanguinário pelos EUA — a tensão se estabelece como uma constante durante toda a projeção, como um ruído a ensurdecer pela constância. A fotografia documental do filme, realista pelas cores fracas e grãos maiores, imediata pelos movimentos incessantes de câmera, consegue se fundir com imagens reais do acontecimento que de fato ocorreu no início da década de 80. A câmera, ao aplicar zooms nas pessoas envolvidas, aproxima o espectador do drama pessoal que se estabelece com esse evento quando descobrimos que seis refugiados poderão ser executados a qualquer momento se forem descobertos.

A introdução que precede a história é rápida, mas faz questão de apresentar todos os fatos políticos que precederam ao ataque. Enquanto ambos os governos negociem durante meses o destino dos presos no consulado a retirada dos refugiados é uma prioridade que, embora oculta, se torna preocupação constante por conta da opinião popular. Há inúmeros ângulos pelos quais se pode analisar a questão — econômico, político, social — e as lentes de Affleck não deixam escapar nenhum deles.

Ao passar-se meses sem ideias com o mínimo de chance de dar certo, o “surgimento” de Tony Mendez (Ben Affleck), um agente da CIA que mantém uma relação distante com seu filho e esposa e que parece ser o menos indicado a pensar a respeito de salvar vidas, é o responsável direto por planejar a produção de um filme de mentira para fazer com que os refugiados saiam do país como inofensivos canadenses. Parece ser a única coisa que conseguiu ser aceito pelo governo, ainda que com receios de que isso gere o efeito contrário, e não apenas pessoas morram, mas a humilhação de um plano patético abra ainda mais a ferida americana nesse incidente diplomático.

O que ocorre em seguida é resultado de um tratamento realista, mas fictício o suficiente para ter o ar cinematográfico necessário para que haja ação mesmo quando estão todos esperando as próximas ordens. Exausto, o grupo que pretende ser resgatado aceitaria qualquer coisa que salve suas vidas, menos ser entregue a um plano vindo de Hollywood (que as câmeras de Affleck sabiamente enfocam através dos seus letreiros caídos, resultado da deterioração e descaso de décadas). Como é possível que alguém saia vivo de um disparate desses?

De qualquer forma, o que nos segura nas cadeiras ainda é a certeza de que essas pessoas passaram muito próximo do que é retratado na tela, e que por isso mesmo sua história é digna de ser mostrada com grandiosidade e até com um certo tom teatral. Não que isso seja ruim. Tanto que um dos momentos mais sublimes do longa envolvendo story boards não é apenas realista, mas visceral e surreal ao mesmo tempo. Da mesma forma, um enquadramento que focalize Tony Mendes e carros de polícia mereceria entrar para a história do Cinema como uma construção de fuga tão bem planejada como foi a da vida real.

Nesse momento, a arte se torna maior que a vida. E o que é mais irônico: graças à vida.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-11-18 imdb