Arizona Nunca Mais

É possível desde o começo da carreira dos irmãos Coen captar essa sagacidade em tornar as coisas surreais. Nunca é o caçador de recompensas simplesmente, mas o caçador com um par de calçados de bebê pendurado e uma calibre 12 que ele manuseia com uma mão só. Nunca são os fugitivos do presídio, mas os fugitivos que possuem uma visão distorcida do mundo em que a natureza de um bandido deve ser seguida para serem alguém na vida. E, por fim, nunca é um romance entre um ladrão de galinhas – ops, vendinhas de conveniência – e uma policial. Este é um romance com complicações que nos revela o quanto somos crianças cuidando de crianças.

A comédia que os Coen nos apresentam aqui, assinando direção e roteiro, é ligeiramente além do razoável, e brinca com alguns acontecimentos dignos de um pastelão. Porém, ao mesmo tempo, há uma importante mensagem aqui. Ou pelo menos é isso que o filme parece querer dizer.

A história é de um casal incidental de um ex-presidiário que é preso várias vezes pela polícia, mas como nunca usa armas de fogo ele é solto em pouco tempo. Ele vê a menina que tira as fotos da polícia todas essas vezes, um romance se desenrola, eles casam. E ela é estéril. Porém, no mesmo estado é divulgada a notícia que o famoso vendedor de móveis naturais Nathan Arizona (Trey Wilson) teve quíntuplos! Ora, como é injusto que alguns tenham tanto e outros tão pouco, não? Aqui vai uma alegoria ridícula sobre igualitarismo que deveria ser usado seriamente para conversar com algumas pessoas.

Então o casal semi-delinquente resolve roubar uma das crianças. São todos meninos, e quase idênticos. Eles acham que capturaram Nathan Jr., e o pai da criança também acha (mas não tem certeza). O que se segue é uma comédia de erros onde as coisas que podem dar errado vão simplesmente dando, sem ao menos percebermos. A história cativa e não nos interessa muito saber seu desenrolar, embora saibamos intuitivamente que esse sequestro deverá ter um fim.

Nicolas Cage faz H.I. McDunnough, um rapaz pacato que se mete com a justiça por achar irresistível assaltar pequenas lojas de conveniência pela estrada. Sem portar armas de fogo, logo ele é solto. Ele é uma figura que lembra incompetência com um pingo de empatia e outro pingo de burrice. Ou será apenas um rapaz muito zen? Não sei. O que sei é que comparado com a dupla de bandidos interpretados por Randall ‘Tex’ Cobb e John Goodman McDunnough parece um rapaz decente. E de fato Nicolas Cage, por pior que sejam os filmes que ele participa, não pode ser acusado de mau rapaz.

Já Holly Hunter como a esposa baixinha e simpática e cheia de sotaque Ed não faz feio. Ela quase consegue ser a versão jovem de Frances McDormand, menos a postura em tela. Ela é um tanto esquecível, mas nas partes boas nos lembramos que ela estava lá. Ela fica apagada principalmente, eu acho, pelo bigode de Nicolas Cage.

Este é um filme que une emoção e surreal em torno de uma quase fábula sobre o valor das coisas e sobre o bem e o mal, mas em uma versão mais… Arizona. Os Coen fazem seu segundo longa (o primeiro foi Gosto de Sangue), e vê-se que estão afiando a navalha para Fargo. Chega a ser emocionante apenas pelo fato de sabermos que esta é a trilha da evolução do par de cineastas mais competentes em atividade.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2018-02-06 imdb