ARQ
Wanderley Caloni, 2017-04-01

ARQ é mais um experimento em filmes de viagem no tempo. Produzido pela Netflix e escrito/dirigido por Tony Elliott (Orphan Black), ele nos leva em uma história que mexe com “loops” temporais que se tornam eficientes como um thriller e um filme de ação estilo videogame. Porém, ele não consegue transparecer tanta complexidade assim conforme nos acostumamos com suas regras e entendemos que o roteiro no fundo não passa de uma ideia para um jogo de computador.

Tudo começa quando um casal, Renton e Hannah, acordam em uma manhã de um futuro pós-apocalíptico e são presos por três ladrões em busca de comida e dinheiro. Quando algo dá errado e Renton morre, tudo começa novamente, só que ele sabe que se trata de uma repetição. A história vai se desenvolvendo a partir dessa premissa e vamos descobrindo a cada nova iteração mais detalhes dos personagens e do funcionamento da máquina de energia infinita que dá nome ao filme.

Com um pé em No Limite do Amanhã, um sci-fi protagonizado por Tom Cruise em que apenas ele consegue se lembrar das iterações de uma batalha contra alienígenas, aqui a analogia com jogos de videogame fica clara quando vemos que a máquina responsável por essa anomalia temporal salva cada dia que se repete em seus arquivos. Além disso, a velha história bobinha de revolucionários contra uma grande corporação que domina todo o mundo se repete, e logo vemos que há mais repetições no cinema do que é possível imaginar nesse filme.

A direção faz junto com a edição um trabalho eficiente de ritmo e tensão, quase sempre com uma câmera na mão e cortes rápidos, que dão tempo para tantas repetições que começamos a sentir o mesmo drama que viveu Bill Murray em O Feitiço do Tempo (mais um “loop”), em que o sentido de tudo aquilo parece desmoronar aos poucos. No entanto, o sentido de localização do filme é tão vago que depois de vermos os mesmos ambientes dezenas de vezes ainda fica difícil entender a geografia daquela casa.

Curiosamente, apesar de tantos “loops”, o casal principal parece não se perder, mas se localizar. Talvez pelo fato de estarem fazendo parte de um videogame, pensando sempre de forma rápida antes que um deles perca a vida e a mesma fase seja reiniciada, a interação entre eles fica cada vez maior. Há também discussões repetidas, como o drama do casal que se separou no passado e se a máquina seria útil nas mãos dos revolucionários. Apenas uma das questões parece avançar, e é a menos interessante delas.

De qualquer forma, as iterações em si conseguem criar um filme de ação e suspense ligeiramente eficientes, e por vermos os personagens interagirem tantas vezes da mesma forma facilita a identificação de cada um deles, mesmo sem sabermos direito o que significa cada um deles nesse mundo, exceto suas sinopses de personagens de… acertou: videogame.

★★★☆☆ ARQ. USA. 2016. Direção: Tony Elliott. Roteiro: Tony Elliott. Elenco: Robbie Amell (Renton), Rachael Taylor (Hannah), Shaun Benson (Sonny), Gray Powell (Father), Jacob Neayem (Brother), Adam Butcher (Cuz), Tantoo Cardinal (The Pope), Nicolas Van Burek (News Anchor), Jamie Spilchuk (Mobius Common). Edição: Kye Meechan. Fotografia: Daniel Grant. Trilha Sonora: Keegan Jessamy, Bryce Mitchell. Duração: 88. Aspecto: 2.35 : 1. Sci-Fi. Estreia no Brasil: 16 September 2016. #netflix