ARQ

ARQ é mais um experimento em filmes de viagem no tempo. Produzido pela Netflix e escrito/dirigido por Tony Elliott (Orphan Black), ele nos leva em uma história que mexe com “loops” temporais que se tornam eficientes como um thriller e um filme de ação estilo videogame. Porém, ele não consegue transparecer tanta complexidade assim conforme nos acostumamos com suas regras e entendemos que o roteiro no fundo não passa de uma ideia para um jogo de computador.

Tudo começa quando um casal, Renton e Hannah, acordam em uma manhã de um futuro pós-apocalíptico e são presos por três ladrões em busca de comida e dinheiro. Quando algo dá errado e Renton morre, tudo começa novamente, só que ele sabe que se trata de uma repetição. A história vai se desenvolvendo a partir dessa premissa e vamos descobrindo a cada nova iteração mais detalhes dos personagens e do funcionamento da máquina de energia infinita que dá nome ao filme.

Com um pé em No Limite do Amanhã, um sci-fi protagonizado por Tom Cruise em que apenas ele consegue se lembrar das iterações de uma batalha contra alienígenas, aqui a analogia com jogos de videogame fica clara quando vemos que a máquina responsável por essa anomalia temporal salva cada dia que se repete em seus arquivos. Além disso, a velha história bobinha de revolucionários contra uma grande corporação que domina todo o mundo se repete, e logo vemos que há mais repetições no cinema do que é possível imaginar nesse filme.

A direção faz junto com a edição um trabalho eficiente de ritmo e tensão, quase sempre com uma câmera na mão e cortes rápidos, que dão tempo para tantas repetições que começamos a sentir o mesmo drama que viveu Bill Murray em O Feitiço do Tempo (mais um “loop”), em que o sentido de tudo aquilo parece desmoronar aos poucos. No entanto, o sentido de localização do filme é tão vago que depois de vermos os mesmos ambientes dezenas de vezes ainda fica difícil entender a geografia daquela casa.

Curiosamente, apesar de tantos “loops”, o casal principal parece não se perder, mas se localizar. Talvez pelo fato de estarem fazendo parte de um videogame, pensando sempre de forma rápida antes que um deles perca a vida e a mesma fase seja reiniciada, a interação entre eles fica cada vez maior. Há também discussões repetidas, como o drama do casal que se separou no passado e se a máquina seria útil nas mãos dos revolucionários. Apenas uma das questões parece avançar, e é a menos interessante delas.

De qualquer forma, as iterações em si conseguem criar um filme de ação e suspense ligeiramente eficientes, e por vermos os personagens interagirem tantas vezes da mesma forma facilita a identificação de cada um deles, mesmo sem sabermos direito o que significa cada um deles nesse mundo, exceto suas sinopses de personagens de… acertou: videogame.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2017-04-01 imdb